Num artigo intitulado “Esquecer ou Rememorar?”, publicado na edição online do jornal Folha 8, o investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL) sugere que a comissão poderá ser criada no Congresso que o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder desde 1975) realiza em setembro.

“[Sugiro que] todos os que participaram neste processo se juntem num conclave nacional, numa Comissão de Reconciliação e de Verdade, para todos, mas todos, se redimirem dos seus erros e culpas, e permitir que as famílias façam o luto oficial e, finalmente, reconciliar a sociedade. Quando isso acontecer, Angola será mais forte, mais una, mais fraterna, mais solidária! Têm a palavra os ‘donos do processo 27M’!”, escreveu Costa Almeida.

Para o também Pós-Doutorando da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, em setembro poderia ocorrer uma “setembrina”, com a possibilidade de o MPLA abrir à comunidade interna e ao país, “de vez”, o tema “27 de maio”, para que se passe, “descansadamente, à História”.

A 27 de maio de 1977, passam hoje justamente 41 anos, uma alegada tentativa de golpe de Estado, numa operação aparentemente liderada por Nito Alves – ministro do Interior desde a independência (11 de novembro de 1975) até outubro de 1976 –, foi violentamente reprimida pelo regime do então Presidente angolano, Agostinho Neto.

Seis dias antes, a 21 de maio, o MPLA expulsara Nito Alves do partido, o que levou o antigo ministro, com vários apoiantes, a invadirem a prisão de Luanda para libertar outros seus simpatizantes, assumindo, paralelamente o controlo da estação da rádio nacional, na capital.

As tropas leais a Agostinho Neto, com o apoio de militares cubanos, acabaram por restabelecer a ordem e prenderam os revoltosos, seguindo-se, depois, o que ficou conhecido como “purga”, com a eliminação das fações dentro do MPLA, em que foram mortas, refere Costa Almeida, cerca de 30 mil pessoas, na maior parte, sem ligação a Nito Alves.

“É altura de todos olharmos para Angola como um país que enterrou todos os seus dramas. É altura de o MPLA abrir-se, de vez, à comunidade e criar, internamente ou mesmo através do Governo nacional, na linha do que fez, e muito bem, a África do Sul e, mais recentemente, o Brasil, a tal Comissão de Verdade, onde tudo pudesse ser transmitido à comunidade e libertados todos os fantasmas”, defendeu hoje Costa Almeida.

Segundo o investigador, o MPLA está a caminho de uma nova direção em setembro, data prevista para a passagem de testemunho na liderança do MPLA entre José Eduardo dos Santos e João Lourenço, “se não houver surpresas de última hora”.

“[O ’27 de maio’] recorda-se, rememora-se ou há quem persista em mantê-lo para que, sem coragem, de outra forma, o conservar sempre na memória do coletivo um processo que persiste em estar na anamnese da sociedade?”, questiona.

“Há que dar oportunidade a milhares de famílias obterem as certidões de óbito dos seus familiares desaparecidos. Não basta dizer que a guerra acabou quando na sociedade ainda persiste uma ferida muito grave por sarar”, sublinhou Costa Almeida.

Lembrando palavras do jornalista angolano Rafael Marques, o investigador realçou que só quando houver “um processo genuíno de reconciliação”, os mortos poderão “repousar na memória coletiva da sociedade, ser emocionalmente enterrados pelos seus entes queridos e justificar o perdão a mandantes e carrascos”.

“Numa sociedade onde, todos os anos, o espetro do 27 de maio de 1977 renasce e sempre com cargas emocionais traumáticas e, por vezes, descompassadas, porque numa sociedade onde não haja entendimento nem reposição da verdade, reabilitação da injustiça, reconhecimento das responsabilidades individuais e coletivas, do pedido genuíno do perdão — e este deve ser feito por todos os que estiveram no processo -, temos de concluir que será sempre uma sociedade castrada”, concluiu.

Publicidade