A Comissão Central de Trabalhadores (CCT) da Petrogal reiterou hoje a importância de o Estado reforçar a participação na Galp, considerando que “Portugal não pode estar sujeito à instabilidade externa” gerada pelas investigações à angolana Isabel dos Santos.

“Portugal e os portugueses não podem estar sujeitos a este tipo de instabilidade externa. O que consideramos que é mais seguro e defende melhor os interesses nacionais é a aquisição da participação angolana na Galp pela Parpública, que atualmente tem 7% do capital [da petrolífera]”, disse o coordenador da CCT da Petrogal em declarações à agência Lusa.

Segundo Hélder Guerreiro, “o Governo [português] tem particulares responsabilidades” neste caso, já que a instabilidade gerada pelas notícias que têm vindo a público relativas a transações suspeitas e esquemas alegadamente fraudulentos por parte de Isabel dos Santos, “que indiretamente detém cerca de 15% do capital da Galp”, põem “naturalmente em causa a estabilidade acionista” da empresa.

A petrolífera angolana Sonangol detém uma participação indireta na Galp através da Amorim Energia. Isto porque a petrolífera angolana controla a Esperaza Holding, empresa que, conjuntamente com o grupo Amorim, detém a Amorim Energia, a qual é dona de 33,34% da Galp Energia.

A Amorim Energia tem como acionistas a Power, Oil & Gas (35%), Amorim Investimentos Energéticos (20%) e a Esperaza Holding BV (45%). Por sua vez, a Esperaza é detida em 60% pela Sonangol e 40% por Isabel dos Santos.

“O próprio Estado angolano pode jogar com a participação que tem na Galp para resolver problemas que tem”, sustentou Hélder Guerreiro, acrescentando que a legitimidade dos receios da CCT tem vindo a ser “reforçada à medida que este novelo se vai desenrolando e vão surgindo novas suspeitas quanto a enriquecimento ilícito e ligações com a Sonangol”.

A CCT admite, contudo, que “não parece haver abertura” por parte do Estado português para atuar, apontando ainda responsabilidades ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a quem atribui “um interesse efetivo em que a participação angolana [na Galp] se mantenha, porventura para evitar que outros a ocupem”.

Face à divulgação, no domingo, por um grupo de jornalistas de investigação de mais de 715 mil ficheiros, sob o nome de “Luanda Leaks”, que detalham esquemas financeiros de Isabel dos Santos e do marido, Sindika Dokolo, que estarão na origem da fortuna da família, a agência Lusa tentou obter reações junto de outras empresas em Portugal onde a empresária angolana tem interesses.

Os investimentos de Isabel dos Santos em Portugal estão sobretudo concentrados nos setores da banca, da energia e das telecomunicações, nomeadamente com posições na operadora de telecomunicações NOS, no banco EuroBIC, na Efacec e na Galp, a que se juntam investimentos imobiliários que Isabel dos Santos terá no país a título pessoal.

Contactados pela Lusa, o grupo Amorim e a NOS não quiseram comentar a situação, não tendo também sido possível, até ao momento, obter uma posição por parte da administração e da Comissão de Trabalhadores da Efacec, da administração da Galp, do EuroBIC e do BPI (que detém uma participação de 48,1% no Banco de Fomento Angola e já foi obrigado a vender 2% pelo Banco Central Europeu à Unitel, que ficou maioritária).

A agência Lusa questionou ainda o Banco de Portugal, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e o Ministério da Economia, não tendo até ao momento obtido respostas.

Mira Amaral, primeiro líder do BIC Português (atual EuroBIC), também não quis comentar o caso: “Saí do banco há quatro anos, nunca mais falei sobre o banco e sobre Angola”, disse à Lusa.

O Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação (ICIJ), que integra vários órgãos de comunicação social, entre os quais os portugueses Expresso e SIC, analisou, ao longo de vários meses, 356 gigabytes de dados relativos aos negócios de Isabel dos Santos entre 1980 e 2018, que ajudam a reconstruir o caminho que levou a filha do ex-Presidente angolano a tornar-se a mulher mais rica de África.

Durante a investigação, foram identificadas mais de 400 empresas (e respetivas subsidiárias) a que Isabel dos Santos esteve ligada nas últimas três décadas, incluindo 155 sociedades portuguesas e 99 angolanas.

As informações recolhidas detalham, por exemplo, um esquema de ocultação montado por Isabel dos Santos na petrolífera estatal angolana Sonangol, que lhe permitiu desviar mais de 100 milhões de dólares (90 milhões de euros) para o Dubai.

Revelam ainda que, em menos de 24 horas, a conta da Sonangol no EuroBIC Lisboa foi esvaziada e ficou com saldo negativo no dia seguinte à demissão da empresária.

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