“Estes documentos revelam que há um sistema de corrupção institucionalizada e generalizada em Angola do qual Isabel dos Santos foi provavelmente a principal beneficiária nos últimos anos, mas houve outros beneficiários e há outras pessoas sob suspeita não só da família do ex-Presidente Eduardo dos Santos, mas generais, responsáveis do partido e do Governo, nomeadamente Manuel Vicente”, disse João Paulo Batalha.

O responsável pelo capítulo português da organização não-governamental (ONG) TI falava à agência Lusa na sequência das revelações da investigação jornalística “Luanda Leaks”.

João Paulo Batalha recordou que apesar de ter sido determinado que o ex-vice-presidente de Angola corrompeu um procurador português não foi questionado pelas autoridades angolanas.

“Foi activamente protegido pelo Presidente João Lourenço e depois, por pressão de Angola, pelo primeiro-ministro português e pelo Presidente da República”, afirmou João Paulo Batalha.

O responsável da ONG acrescentou: “O grande teste agora para o Presidente é saber se ele está disposto a mostrar a mesma determinação no combate a esses outros beneficiários da corrupção generalizada como tem mostrado – e bem – em relação a Isabel dos Santos”.

Para isso, sustentou o presidente da TI, é necessário pôr as autoridades angolanas “a investigar outros negócios suspeitos de outras altas figuras angolanas” e “criar um sistema de combate à corrupção que reforce a capacidade, a independência e o poder das instituições de controlo em Angola”.

Sobre a acusação de Isabel dos Santos de que a investigação aos seus negócios é politicamente motivada pelo atual Governo, João Paulo Batalha admite que “é parcialmente verdadeira”, mas sublinha que tal não “é grande defesa” para a empresária.

“Há uma vontade política no sentido de investigar os negócios dela e reverter os danos que causou e os ativos que roubou, mas não é grande defesa porque a fortuna e o estatuto de Isabel dos Santos são desde sempre políticos. O seu império é político e, portanto, o fim do seu império também é eventualmente político”, frisou.

Um consórcio de jornalismo de investigação revelou no domingo mais de 715 mil ficheiros, sob o nome de “Luanda Leaks”, que detalham esquemas financeiros de Isabel dos Santos e do marido, Sindika Dokolo, que estarão na origem da fortuna da família.

O Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação (ICIJ), que integra vários órgãos de comunicação social, entre os quais o Expresso e a SIC, analisou, ao longo de vários meses, 356 gigabytes de dados relativos aos negócios de Isabel dos Santos entre 1980 e 2018, que ajudam a reconstruir o caminho que levou a filha do ex-Presidente angolano a tornar-se a mulher mais rica de África.

Durante a investigação foram identificadas mais de 400 empresas (e respetivas subsidiárias) a que Isabel dos Santos esteve ligada nas últimas três décadas, incluindo 155 sociedades portuguesas e 99 angolanas.

As informações recolhidas detalham, por exemplo, um esquema de ocultação montado por Isabel dos Santos na petrolífera estatal angolana Sonangol, que lhe permitiu desviar mais de 100 milhões de dólares (90 milhões de euros) para o Dubai.

A investigação revela ainda que, em menos de 24 horas, a conta da Sonangol no Eurobic Lisboa, banco de que Isabel dos Santos é a principal accionista, foi esvaziada e ficou com saldo negativo no dia seguinte à demissão da empresária.

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