Lusotropicalismo, crioulidade e lusofonia como variantes de um mesmo discurso doutrinário

A Opinião de Filipe Zau

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Filipe Zau, angolano, Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

Afigura-se-nos que “as sociedades crioulas se caracterizam como ambientes societais, produto de amalgamento biocultural num espaço de relativa exiguidade, com uma língua própria de comunicação, em tudo emergente de um processo de transculturação.”

 Inicialmente utilizado, no Brasil, em pleno século XVI, nos fins do século XVIII o termo “crioulo” já se encontrava generalizado por toda aquela ex-colónia portuguesa com o sentido de “escravo que nasceu em casa do senhor”, em oposição ao chamado “negro buçal” vindo do tráfico africano. Propagando-se às áreas hispano-americanas, “crioulos” eram os brancos nascidos no novo Mundo. Contudo, “existe a tendência de considerar ‘crioulo’ a todo o nativo africano portador de valores induzidos pelo encontro simbiótico da cultura da comunidade étnica de origem com a ocidental portuguesa.”

Em Angola, Mário António de Oliveira, em «Luanda ‘Ilha’ Crioula», foi o primeiro autor a debruçar-se de forma mais detalhada sobre a “crioulidade”. Afirmava “que tal grupo seria fruto de pequenos núcleos populacionais resultantes da penetração portuguesa em África, restrita a uma faixa litorânea ponteada por portos para o comércio de escravos, além de uma pequena inserção nas margens do rio Kwanza, através da construção de presídios e do estabelecimento de mercados ou feiras.” Ainda de acordo com Mário António, a presença “crioula” ter-se-ia consolidado nessas regiões a partir do século XVII e Luanda constituiria o local privilegiado pelos seus componentes.

Em 1999, no Colóquio “O Luso-tropicalismo Revisado”, realizado na Sociedade de Geografia de Lisboa, o sociólogo Victor Kajibanga, apresentou o texto «Crise da Racionalidade Lusotropicalista e do “Paradigma” da Crioulidade; o caso da antropossociologia de Angola», onde afirmou ser a “crioulidade” a variante angolana do “luso-tropicalismo”. Na esteira de Mário Pinto de Andrade e dos ensaístas portugueses Alfredo Margarido e Orlando de Albuquerque, considerou “não ter havido em Angola a cristalização (no sentido hegemónico ou de enraizamento) das formas socioculturais resultantes da interação entre Europeus e Africanos.” Fundamenta esta sua afirmação ao considerar que o peso das etnicidades e das sociedades étnicas na sociedade angolana contemporânea, assim como o recurso sistemático que as elites do Estado pós-colonial fazem às clientelas étnicas como suportes e bases de apoio do poder instituído, são alguns dos factos que contrariam o mito fundador da “crioulidade”.

Para Victor Kajibanga, os termos sociedade “biculturalmente mestiça” e “sociedade crioula” têm apenas como alvo a construção de uma teoria explicativa, totalitária e hegemónica sobre a realidade sociológica angolana. Acrescenta ainda que “(…) o paradigma da antropossociologia da crioulidade angolana formulado nos trabalhos de José Carlos Venâncio e Francisco Soares (…) falseiam essa mesma realidade e se prestam a cultuar o mito dos grandes feitos dos descobrimentos e da colonização portugueses, o discurso da raça e uma epistemologia de pendor eurocentrista e paternalista”.

Muito próximo das posições de Mário Pinto de Andrade, com base numa “(…) nova grelha (de leitura) teórica para a explicação dos factos e processos sociais angolanos” que assenta numa sociologia (e epistemologia) do saber endógeno, Vítor Kajibanga refuta aquilo a que ele próprio chama de “racionalidade luso-tropicalista e paradigma da crioulidade”. Ao refutar a teoria da “crioulidade” (a variante do luso-tropicalismo para Angola), afirma haver um “carácter falacioso do mito do não racismo português, que os insignes teóricos da crioulidade também pretendem defender e eternizar de forma camuflada”. Nos dias de hoje, certos discursos, aparentemente inócuos, em defesa do falso conceito de “lusofonia”, já chegam a por em causa se “o colonialismo teria sido assim tão mau”, como recentemente ouvi da parte do escritor angolano José Luís Mendonça, numa entrevista a um canal de televisão.

Victor Kajibanga diz-nos que “a essência social do colonialismo é una”. Daí não acreditar que tenha existido no mundo colonialismos, que se caracterizassem por sentimentos de generosidade e “que supostamente terão investido na formação da nova cultura e do homem novo, em detrimento do saque de recursos naturais (e outras riquezas) e da exploração de mão-de-obra das populações colonizadas.” Esta opinião de Victor Kajibanga vai, também, de encontro à de Frantz Fanon que, na sua obra, «Os Condenados da Terra», afirmava que “as relações colono-colonizado são relações de massa. Ao número o colono opõe a força.” Guy Rocher, por seu turno, em «Sociologia Geral. Mudança Social e Acção Histórica», Vol. 3, aponta seis características essenciais da situação colonial: a exploração económica estrangeira; a dependência política; as barreiras sociais e raciais; a atomização social; e o sistema de justificações.

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