Em Chã das Caldeiras, aldeia na cratera do vulcão levada na erupção de 2014, não há família que não tenha uma pequena vinha, plantada em campos que já há cinco anos eram de lava incandescente. Organizados numa cooperativa, deram origem ao conhecido vinho “Chã”.

“Toda a gente, todos os anos, faz plantação de vinha, porque é uma cultura que dá rendimento”, explica o presidente da Cooperativa de Transformação dos Produtos Agropecuários de Chã das Caldeiras, David Monteiro.

São já mais de 1.500 hectares de vinhas, em plantações rasteiras que chegam até à quota dos 2.200 metros, em plena encosta do pico principal do vulcão, numa grande cratera de nove quilómetros de diâmetro, onde está inserida a aldeia.

Cinco anos depois da última erupção, as plantações estão recuperadas, o problema é a seca, com os últimos três anos praticamente sem chuva em Cabo Verde. “Este ano as plantas estão em boas condições, com melhores lançamentos, para uma boa produção em 2020. Mas infelizmente temos tido a infelicidade de não ter a chuva”, lamenta David Monteiro.

A cooperativa, que recebe praticamente toda a produção de uva na cratera, é ela própria um exemplo da resiliência de quem em Chã das Caldeiras já perdeu tudo nas erupções (1951, 1995 e 2014) mas prefere sempre voltar, para reerguer tudo, por entre um mar de lava que de cada vez cobre tudo à sua volta.

Na história registada da ilha do Fogo, desde 1500, a erupção de 2014 foi a 27.ª, sendo que a instalação do que é hoje a aldeia de Chã das Caldeiras remonta apenas ao início do século XX.

A adega da cooperativa, em pleno centro da aldeia, não escapou às duas últimas erupções.

Escapou, isso sim, recorda o presidente da cooperativa, à pressão das autoridades para, após nova destruição completa em 2014, a deslocalizar para São Filipe, a capital da ilha, a uma hora de viagem de carro, descendo o vulcão para transportar as uvas.

“Não havia condições para fazer vinho lá. Era preciso fazer toda essa coisa de transporte, levar as uvas. Quando chegassem a São Filipe, as uvas estavam completamente esmagadas, oxidadas, etc”, explica David Monteiro, recordando a oposição que os produtores fizeram à deslocalização.

“O Governo deu luz verde para trabalhar no interior da cratera. Aqui temos melhores condições, climáticas, é mais perto, as uvas chegavam à nossa adega em boas condições para fazer um bom vinho”, explica, sobre a nova adega, que a cooperativa inaugurou em 2015, ano em que apenas produziram 20.000 litros de vinho.

Na última produção já chegaram aos 50.000 litros, ainda assim cerca de metade do que necessitam para corresponder às encomendas, do mercado interno e da exportação.

Atualmente, a produção do vinho “Chã” é essencialmente branco (75% do total). Com vinhas espalhadas por toda a cratera, entre a cerca de uma centena de casas que vão sendo reconstruídas entre o que sobrou da lava, há ainda produção de vinho tinto (20%) e rosé (5%), além de alguns licores de frutas.

A exportação, devido à baixa da produção com a seca, é que tem estado condicionada, já que não há quantidade suficiente para justificar a venda para fora, que no passado já chegou a ter um peso de 20 a 30% do total, sobretudo para Portugal e para os Estados Unidos, desde logo devido à forte presença de emigrantes cabo-verdianos nesses países.

“Tivemos azar com a erupção de 2014 e parámos a exportação. Nunca mais conseguimos recuperar (…) Há interesse, não temos é produção”, explica o presidente da cooperativa.

De olhos no céu, à espera das chuvas que ainda podem cair até fevereiro, David Monteiro diz que basta haver água para facilmente a adega produzir 100.000 litros de vinho e equilibrar as contas.

“Se vier a chuva”, desabafa.

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