“Depois das primeiras diligências feitas constatamos que na verdade há um plano premeditado para o sequestro de N’Dinho”, afirmou o advogado, em declarações aos jornalistas.

Armando Correia Dias, também empresário guineense e conhecido por N’Dinho, foi detido quando circulava numa viatura, como passageiro, onde seguiam mais duas pessoas, segundo fonte do partido.

O empresário está na segunda esquadra de Bissau, mas o advogado diz que não conseguiu contactar com Armando Correia Dias, tendo sido impedido pelos agentes no local.

“Ele está sequestrado pelo Ministério do Interior. Não há notificação, não há mandado, nada”, disse Suleimane Cassamá.

O advogado esclareceu ter sido informado de que as entradas na segunda esquadra estão proibidas e o acesso está vedado.

“A lei obriga a dar acesso aos advogados em relação aos seus constituintes”, salientou.

Nestas declarações à imprensa, ao lado do advogado, estava também o deputado do PAIGC Wasna Papai Danfa, que acompanhava Armando Dias Correia quando este foi levado por elementos da Polícia de Intervenção Rápida (PIR).

“Quando estávamos a passar junto à PIR veio um carro de marca Mercedes que nos intercetou”, disse aos jornalistas.

Segundo o deputado, o homem da viatura foi falar com os agentes da PIR, que se aproximaram do carro onde seguia com Armando Dias Correia e outro membro do PAIGC e os mandaram sair.

Wasna Papai Danfa disse que se identificou como deputado e que os agentes tentaram meter no carro uma mala com armas.

“Eles começaram a dizer que as armas eram nossas, meteram as armas no carro”, explicou o deputado, questionando qual a razão por só Armando Dias Correia ser levado pela PIR.

Wasna Papai Danfa disse que os três iam buscar um outro deputado do PAIGC, que estava com medo de sair de casa para participar nas jornadas parlamentares do partido.

Segundo o deputado guineense, o presidente do parlamento, Cipriano Cassamá, está a tentar contactar com o ministro do Interior, Botche Candé, para saber o que se passa.

A Guiné-Bissau tem vivido desde o início do ano mais um período de crise política, depois de Sissoco Embaló, dado como vencedor das eleições pela Comissão Nacional de Eleições, se ter autoproclamado Presidente do país, apesar de decorrer no Supremo Tribunal de Justiça um recurso de contencioso eleitoral apresentado pela candidatura de Domingos Simões Pereira.

Na sequência da sua tomada de posse, o Presidente guineense demitiu o Governo do PAIGC liderado por Aristides Gomes e nomeou para o cargo Nuno Nabian, líder da Assembleia do Povo Unido – Partido Democrático da Guiné-Bissau, que formou um Governo com o Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15), o PRS (Partido de Renovação Social) e elementos do movimento de apoio ao antigo Presidente guineense, José Mário Vaz, e do antigo primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior.

Em abril, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) reconheceu Umaro Sissoco Embaló como vencedor das eleições presidenciais, apesar do recurso de contencioso eleitoral, e pediu a nomeação de um novo Governo, que respeitasse os resultados das legislativas de março de 2019, ganhas pelo PAIGC, até 22 de maio.

A União Europeia, União Africana, ONU, Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e Portugal elogiaram a decisão da organização sub-regional africana por ter resolvido o impasse que persistia no país, mas exortaram a que fossem executadas as recomendações da CEDEAO, sobretudo a de nomear um novo Governo respeitando o resultado das últimas legislativas.

O prazo imposto pela CEDEAO não foi cumprido e o Presidente guineense estendeu depois o mesmo até 18 de junho, admitindo dissolver o parlamento caso não houvesse um entendimento, e dando as rédeas para ultrapassar a situação ao presidente da Assembleia Nacional Popular, Cipriano Cassamá, que acabou por remeter o assunto para a plenária.

A comissão permanente do parlamento guineense anunciou na terça-feira que a sessão ordinária de junho tem início no próximo dia 29.

Umaro Sissoco Embaló admitiu esperar pela sessão ordinária da Assembleia Nacional Popular antes de decidir se dissolve ou não o parlamento, perante o impasse para a formação de um Governo.

O parlamento guineense encontra-se dividido em dois blocos, com ambos a reivindicarem a maioria parlamentar e a defenderem o seu direito de formar Governo.

O PAIGC venceu as legislativas de março de 2019 sem maioria e fez um acordo de incidência parlamentar com a Assembleia do Povo Unido -Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB), Partido da Nova Democracia e União para a Mudança, obtendo 54 dos 102 assentos no parlamento.

Logo no início da legislatura, o líder da APU-PDGB, Nuno Nabian, que ocupa agora o cargo de primeiro-ministro, incompatibilizou-se com o PAIGC e aliou-se ao Madem-G15, segunda força política do país, com 27 deputados, e Partido da Renovação Social, que elegeu 21 deputados.

Apesar da nova aliança, quatro dos cinco deputados da APU-PDGB mantiveram a sua lealdade ao acordo de incidência parlamentar assinado com o PAIGC.

Em maio, um dos deputados da APU-PDGB que mantém o apoio ao acordo com o PAIGC também foi raptado em circunstâncias ainda por esclarecer.

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