O primeiro, documental, com cerca de hora e meia, cujo cenário, mesmo que não se visse, estaria sempre presente na memória dos que foram obrigados a habitá-lo, é preenchido, sobretudo, por depoimentos. Feitos de palavras com o sabor a sal, do mar que banha a praia onde se situa o antigo presídio. Ao qual foram confinados alguns dos que ousaram opor-se à ditadura colonial e fascista. Como se aferrolhar movimentos significasse algemar sonhos, quanto mais guilhotiná-los.

O filme, todo passado na “Terra Longe”, já começou a ser rodado, naquela ilha de gente boa, sofredora, solidária, como Nha Beba – cuja vida de cem anos, dava, por si só, uma longa-metragem, a primeira personagem a ser ouvida por Zezé Gamboa, a única que nunca, pelo menos naquela altura, conheceu o campo por dentro. Nha Beba fala, entre tantas coisas para contar, da amizade entre ela e Luandino Vieira, da forma como ambos driblaram a vigilância apertada do presídio e a permitiu esconder manuscritos mais tarde publicados em livros.

“Tarrafal – Terra Longe” é dividido em “capítulos”, aparentemente distintos, mas, no fundo ligados, entre si, por correntes entrelaçadas com nós de amor pela Pátria usurpada. O filme é feito de matebas de arte, no verdadeiro sentido das palavras únicas das estórias de Luandino, mas, igualmente saídas das melodias das cordas do violão de Liceu Vieira Dias ou dos ngomas de Amadeu Amorim.

Em sons ímpares de saudade da Angola vivida e sonhada, amores separados, choros de mães, filhos e companheiras, “Terra Longe” mistura, nos cadinhos feitos de casca de coco, os textos em prosa feitos poemas do escritor que, como ninguém, passou para o papel a forma do português falado na nossa terra de Luanda. Ambos, Amadeu Amorim e Luandino Vieira falam na primeira pessoa. Sobre eles e outros. Todos companheiros de utopias, cativeiro, solidões, desenganos, dor. De sentir partidas, ânsias de esperas de chegadas. Ou sequer de uma coisa ou outra.

Os dois, revelou, Zezé Gamboa, falam do “mais velho” António Jacinto, outro vulto grande da literatura angolana. Seus poemas, principalmente, foram, são, hinos de incentivo à liberdade, socos em mentes adormecidas. Neste “capítulo” cabem, também, António Cardoso, Mendes de Carvalho, Pedro Pacavira. Noutro, o chamado “grupo de estudantes”, estão Aldemiro da Conceição, Alberto Neto, Jaime Cohen, Justino Pinto de Andrade.

O encontro, no Tarrafal, entre protagonistas reais e realizador, há-de ser “ilustrado” com imagens do campo, parte das quais já feitas, mas também dos filmes “Ngola Ritmos”, de António Ole, “Sambizanga”, baseado em “A Vida Verdadeira de Domingos Xavier”, e “Monangamba”, tirado de “O Fato Completo”, ambos livros de Luandino Vieira, adaptados ao cinema por Sarah Maldoror.

O filme, imprescindível no preenchimento de parte do arquivo documental da História recente de Angola, lembra o realizador, tem de ser feito para não se esfumarem memórias do tempo sofrido da luta pela libertação do país e correr riscos de ser adulteradas, ou esquecidas.

O “filme tem de ser feito” e pode, no essencial, estar concluído este ano, o mais tardar no próximo, desde que se concretizem garantias e promessas de apoios. Entre outros, do Instituto Angolano de Cinema e Audiovisual, via Ministério da Cultura, Instituto de Cinema de Portugal e Rádio Televisão Portuguesa, Fundo Caraíbe Pacífico (Bruxelas), Cinema du Monde (França) e Agência de Cinema, do Brasil.

PROJETOS EM CARTEIRA
Prioridade para “Kambas” tragicomédia de ficção

Zé Gamboa tem, como qualquer realizador digno desse nome, projectos em carteira, entre os quais “Kambas”, uma tragicomédia de “cariz urbano”, que conta a estória de quatro amigos luandenses alérgicos ao trabalho, mas amigos da boa vida.

Todos, com “cerca de 40 anos e cores de pele diferentes”, tal como as profissões que fingem ter ou tiveram. Um foi bancário, mas se cansou de ver as notas em mãos alheias. Outro tem um “stand” de automóveis, mas, que se saiba, nunca vendeu nenhum. O terceiro andou a estudar para padre, desistiu e trocou as rezas pelo casino, enquanto o quarto não se sabe bem o que faz, nem gosta de falar disso.

A ligá-los, excetuando as idades, apenas o sonho de um dia poderem viver, de papo para o ar, mesa farta, com lagosta de preferência. Qual funji, kizacas, bombós, quitaba qual quê. Também gins, em copos bem decorados, o sabor não interessa, os olhos também bebem, vinhos dos mais, uísques apenas escoceses e espumantes só franceses, pois então. A excepção é a birra nacional bem gelada, a partir os dentes. Um dia-a-dia a fazer kilapes no bar de Miss Curvas, na Ilha de Luanda. Coitada, diariamente a ver a vida a andar para trás e a pilha dos papéis do “aponta” a subir no prego de lhes espetar que parece satélite que vai e não volta.

No frenesi de enriquecerem, gastam horas a pensar, traçar planos. No cruzamento de conjeturas de golpadas, o batoteiro leva a empregada do casino, que, afinal, é filha do dono, um oriental, cheio de bago de várias nacionalidades, a apaixonar-se por ele. Foi meio caminho andado para complicar ainda mais a vida atribulada dos quatro. Que agora passa a incluir perseguições automóveis, derrapagens, colisões, capotamentos, buzinas, com, choro de pneus e travões, o povo na rua a fugir, a pedirem ajuda a Sant’Ana, Senhora do Cabo, Cristo na cruz, Crianças a rir e a bater palmas. Estas cenas, que empolgam salas de cinema, requerem condutores de viaturas que saibam o que fazem para a “tragédia” não perder as aspas e passar a real. Os franceses fazem-nas, com os respetivos efeitos especiais e visuais, os famosos “cascadeurs”, são barras. Por isso, são caros, mas, garante Zezé Gamboa, vale a pena. Um filme destes, revela, não é muito caro e as filmagens levam entre seis a sete semanas.

lém de “Kambas”, o primeiro na “lista de espera”, há mais projectos. De ficção e documental. Neste último caso, há um sobre Adolfo Maria, o nacionalista que, entre tantas estórias para contar, que incluem exílio, maquis, prisões, tem a do tempo em que, já depois da Independência Nacional, esteve escondido, meses e meses, em Luanda, num apartamento, sem a própria mulher saber, para escapar à então polícia política angolana, DISA, entretanto, extinta.

Porquê Tarrafal
A pergunta era inevitável, porquê Tarrafal e não São Nicolau ou Missombo, igualmente campos de concentração, e a resposta foi, igualmente, lógica, “por ser o único fora de Angola, logo de mais difícil acesso às visitas, mais solidão”.

A resposta embora imediata não conseguiu esconder tristeza de quem quer, mas não pode. Logo segui-do de desejo lamento: “como gostava de realizar trabalhos idênticos ao do Tarrafal sobre aqueles dois antigos campos de concentração, tal como a Casa da Reclusão e a Cadeia de São Paulo, marca do início da nossa luta armada contra o colonialismo, pois todos têm memórias guardadas que correm o risco de se perderem. A verdade é que um projeto desta natureza tem custos. E quem é que os quer cobrir?”

O jornalista não tem respostas, mas pode fazer perguntas, não ao realizador, mas a si próprio: como é possível tamanha falta de sensibilidade, egoísmo, ignorância, até, para o interesse da nossa História? Não basta falar em gerações vindouras, anunciar compromissos de construirmos uma Angola melhor para as próximas gerações se nos abstemos de lhes transmitir o conhecimento, o direito – que hão-de reivindicar – de saberem o que custou nascermos como país.

Ao ignorarmos o valor de monumentos que, por si só, podem contar histórias verdadeiras de heroicidade, martírio, desespero, abnegação, solidariedade dos que lutaram pela liberdade de um povo, estamos a construir um país pior. Para as gerações futuras, mas também para nós, o presente. Por mais arranha-céus nas cidades, jangos comunitários nas aldeias, satélites no espaço.

Trajeto de um cineasta

O nome de Zezé Gamboa, luandense, nascido em 1955, começou a ser notado, a nível do cinema, no final da década de 1980, com a realização dos documentários “Mopiopio” e “Dissidência”, reconhecidos além-fronteiras.

Para trás ficara o tempo da realização de telejornais e programas de informação na TPA. Que se tornaram demasiado acanhados para o talento que já revelava e, acima de tudo, a vontade crescente de evoluir profissionalmente, aprender cada vez mais. Por isso, em 1984, obteve, em Paris, o diploma de engenheiro de som, na Néciphone, num curso dirigido por Antoine Bonfanti.

O canudo abriu-lhe portas de um mundo novo. Como engenheiro de som, participou em mais de 30 produções cinematográficas estrangeiras. Mas, o realizador de longas-metragens estava ainda por aparecer. E em 1992, durante o processo de paz em Angola, já com asas feitas das experiências adquiridas, esteve quase. Começou a preparar esse voo.

Contudo, o reacender da guerra civil trocou-lhe as voltas, adiou-lhe o plano. Recomeçado em 2002, com o calar das armas. O “Herói”, parecia ter estado à espera para nascer em paz. E ser reconhecido interna e externamente. Como sucedeu em 2005, quando arrebatou o Prémio do Grande Júri do World Dramatic Competition, do Sundance International Filme Festival, nos Estados Unidos.

E, de repente, os nomes do filme, de Zezé Gamboa e de Angola saltaram para os noticiários de jornais, rádios e televisões de vários países. E continuou a ganhar prémios, ser selecionado e convidado para festivais de prestígio de diversos cantos do planeta. Como o de Cannes, em 2007, no qual foi apresentado, como “celebração do cinema africano”.

O passo seguinte, foi em 2014, outra longa-metragem, “O Grande Kilapy”. Estreado em Angola, Portugal e Brasil. Também merecedor de distinções, bem como de debates internacionais, até tema de teses em universidades.

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