O pesquisador moçambicano João Feijó defende que Moçambique corre o risco de se tornar num “Estado falhado” com os armados na província de Cabo Delgado, alertando para a possibilidade de o conflito atingir proporções de uma guerra civil.

“Quando chegamos a uma situação em que o Estado não consegue exerce as funções essenciais, que devem garantir a administração do território, providenciar assistência médica e educação, o risco é de o país se transformar num Estado falhado”, disse à Lusa João Feijó, pesquisador da Organização do Meio Rural (OMR) e docente universitário.

Para João Feijó, os ataques armados, que têm afetado distritos da província de Cabo Delgado, resultam de “históricas contradições socioeconómicas” na região e estão a ser exploradas por “movimentos religiosos radicais e violentos”, capitalizando um alegado descontentamento de milhares de jovens que se sentem excluídos.

O Estado “economicamente frágil revela hoje incapacidade de garantir segurança os seus funcionários e das populações”, invalidando a administração do território, frisou.

De acordo com pesquisador, as evidências deixam transparecer a existência de um “grupo de rebeldes com organização militar”.

“A persistência do conflito, a aparente capacidade de recrutamento de jovens locais e descontentes e a hipótese de existência de uma base social de apoio, aumentam o risco de transformação do conflito numa guerra civil”, alertou.

Feijó considera que se trata de uma situação “embaraçosa” para o Governo, acusando o executivo moçambicano de estar a tentar ocultar a “realidade no terreno” colocando obstáculos a jornalistas e investigadores no acesso à informação.

O pesquisador observa que a necessidade de aumentar militares no terreno tem implicações nas contas públicas e no custo de investimento pelas multinacionais, com impacto na renegociação dos contratos e fragilizando o Estado, anota.

Por outro lado, a nível social, o abandono das zonas de colheitas devido a violência faz antever uma “crise humanitária” em Cabo Delgado, acrescenta.

O pesquisador considera que o Governo apresenta números “claramente deflacionados” em relação aos apresentados pelas populações e redes sociais.

A gestão do conflito em Cabo Delgado será um desafio “sério” para as autoridades moçambicanas, regionais, agências internacionais de desenvolvimento e organizações locais, acrescenta.

A atual legislatura terá de garantir segurança das populações, reforçar efetivo militar e de inteligência, cooperação internacional, com meios próprios e formação em termos de direitos humanos, sugere.

Criação de investimentos inclusivos, formação agropecuária, transporte, comércio, oficinas entre outros são formas de travar os grupos armados.

Os ataques armados na província de Cabo Delgado, onde nascem os megaprojetos de gás natural, já provocaram, pelo menos, 350 mortos e afetaram 156.400 pessoas.

Nunca houve uma reivindicação da autoria dos ataques, com exceção para comunicados do grupo “jihadista” Estado Islâmico, mas cuja presença no terreno especialistas e autoridades consideram pouco credível.

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