Moçambique depois de Dhlakama

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Jaime Nogueira Pinto, português, jurista, doutor em Ciências políticas

A inesperada morte de Afonso Dhlakama, além da natural tristeza e pesar que traz a quem o conheceu e seguiu o seu itinerário – de guerrilheiro resistente a líder político e, com Chissano, em 1992, a construtor da paz -, pode trazer consequências inesperadas ao processo de pacificação e entendimento por ele negociado com Filipe Nyusi.

Depois de renovadas tréguas, o processo avançou essencialmente pela confiança restaurada e pela vontade de entendimento dos dois dirigentes. Nyusi teve de usar de toda a sua autoridade na Frelimo para se deslocar à Gorongosa e impor uma agenda e um calendário de paz que contemplasse velhas reivindicações da oposição: maior descentralização dos poderes governamentais, com a possibilidade de autonomia regional através da nomeação para governadores provinciais de quadros da oposição, e o ingresso nas estruturas militares, policiais e da segurança de Estado de elementos da Renamo, condição para o desarmamento.

O risco é que, com a morte daquele que foi o líder da Renamo por quase quatro décadas, alguém no partido do governo pense que a Renamo se vai dissolver e que já não é preciso cumprir o negociado, ou seja, proceder à alteração constitucional essencial para a concretização das mudanças acordadas. Aí poderia verificar-se, por reação, um movimento de rejeição dos acordos e uma fragmentação da Renamo entre os elementos da “ala política” e da “ala operacional”, dando origem a grupos descontrolados que subvertessem ou simplesmente desestabilizassem zonas do país.

O que, num momento em que há problemas de terrorismo em Cabo Delgado, seria um cenário negativo. As figuras mais destacadas para se apresentarem como sucessores de Dhlakama no congresso do Partido são, por ora, Ivone Soares, a sobrinha, líder parlamentar e das Juventudes da Renamo, e o secretário-geral do partido, Manuel Bissopo. Mas outras poderão surgir.

De qualquer forma, o entendimento pacífico entre as principais forças políticas – Frelimo, Renamo e MDM – é condição sine qua non do desenvolvimento do país.

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