“Penso que os credores não vão avançar enquanto a justiça não finalizar o processo. Acho que uma questão está dependente da outra. Depois de a justiça concluir o julgamento, penso que o passo seguinte” é “ver quem é o culpado e negociar a dívida”, afirmou numa entrevista à Lusa, o empresário, dono de uma das maiores empresas de Moçambique, a Intelec (grupo que atua nos setores da Energia, Publicidade, Turismo, Finanças, Recursos Minerais, Telecomunicações, Imobiliária e Consultoria.

A Procuradoria-Geral da República de Moçambique (PGR) anunciou no dia 22 de março que 28 pessoas foram constituídas arguidas no âmbito do processo das dívidas ocultas, tendo sido remetida ao tribunal a acusação contra 20 delas.

Os 20 arguidos cuja acusação foi remetida ao tribunal estão indiciados da prática de corrupção passiva por ato ilícito, peculato, branqueamento de capitais, associação para delinquir, abuso de confiança e chantagem.

Já esta semana, o Gabinete Central de Combate à Corrupção de Moçambique anunciou a detenção de Helena Taipo, antiga ministra do Trabalho de Moçambique e ex-embaixadora em Angola, investigada por desvios de fundos no Instituto Nacional de Segurança Social, e o ex-governador do Banco de Moçambique Ernesto Gove foi constituído arguido no mesmo processo.

O caso está ligado à prestação de garantias de mais de dois mil milhões de dólares pelo anterior Governo moçambicano a favor de três empresas do Estado ligadas à segurança marítima e pesca sem o conhecimento da Assembleia da República e do Tribunal Administrativo.

A justiça norte-americana considera que parte do dinheiro foi usada para o pagamento de subornos a figuras do Estado moçambicano e a banqueiros internacionais.

Entre os detidos no caso estão já também Ndambi Guebuza, filho do antigo Presidente moçambicano Armando Guebuza, e a antiga secretária particular do ex-chefe de Estado Inês Moiane, bem como antigos dirigentes dos serviços de informação moçambicanos.

O ex-ministro moçambicano das Finanças Manuel Chang está detido na África do Sul, sendo passível de extradição para Moçambique ou Estados Unidos pelo seu papel no caso das dívidas ocultas.

Salimo Abdula, que é presidente executivo da empresa de telecomunicações Vodacom e também presidente da Confederação Empresarial da CPLP, organização para a qual foi reeleito recentemente para um segundo mandato, considera que “a dívida deve ser paga, se se concluir que há culpados e o Estado [moçambicano] tem obviamente essa envolvência”.

Para o empresário, porém, este processo não é, por si só, um entrave à atração de investidores para o país.

Moçambique, nos piores momentos, sempre conseguiu atrair o interesse de investidores, recordou, considerando, porém que o país “não tem sabido aproveitar as capacidades, quer de investidores estrangeiros quer de nacionais, pelos episódios que tem vivido nos últimos tempos”.

“Se calhar nós, como país, é que não estamos a saber aproveitar a capacidade dos investidores, que vêm de várias partes deste globo para investir em Moçambique, e dos próprios moçambicanos, pelas situações que temos vivido recentemente”, afirmou o empresário

Quando falou de situações vividas recentemente pelo país, Salimo Abdula disse estar a referir-se às questões político militares (processo de paz em curso entre Governo e Renamo, maior partido da oposição em Moçambique e ataques sobre tudo no norte do país por grupos terroristas), às políticas e à vulnerabilidade do país face às questões ambientais, expostas agora, de forma evidente, perante o ciclone Idai, que afetou fortemente a região centro.

Mas Moçambique continua a atrair investidores, ainda que “forma acanhada” porque “é um país com um potencial geoestratégico e com abundância de recursos naturais pouco explorados, para além do potencial agroindustrial e do potencial turístico” que tem.

Sinais disso são a compra recentemente anunciada da Anadarko, empresa envolvida na exploração de gás em Moçambique, pela gigante petrolífera norte-americana Chevron ainda na semana passada.

Este é também um sinal para Salimo Abdula de que poderá haver um recuo do interesse de algum tipo de investidores, mas há um outro tipo de investidores que Moçambique está a atrair.

Num relatório o Fundo Monetário Internacional (FMI) indica uma subida acentuada na dívida pública de Moçambique, de 100,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2018, para 124,5% este ano, o que representa a pior subida na região da África subsariana (conjunto de 45 países definidos para as análises internacionais, a quase totalidade do continente africano).

A dívida pública de 100,4% em 2018, que demonstra que Moçambique teve de pagar aos credores internacionais mais do que o que teve capacidade de produzir no mesmo ano, é considerada insustentável pelas consultoras económicas.

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