“O governo do dia tem dito que vai combater a corrupção, mas nós achamos que são falácias, porque não existe nenhum feiticeiro que tire o seu próprio feitiço”, afirmou Filipe Primeiro, candidato a deputado pelo MDM em campanha em Inchope, entroncamento económico do país.

“Temos dito ao eleitorado que a única esperança do povo moçambicano é o MDM”, terceira força política no parlamento moçambicano, onde a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) sempre teve a maioria.

Fome, miséria, falta de água, de energia e de medicamentos na maioria das aldeias do interior de Manica, centro de Moçambique, é fruto de “40 anos de desgovernação” do país, aponta o candidato a governador de Manica pelo MDM, Arone Mussualho.

“Se queremos mudança, temos de tomar a dianteira em vez de esperar que outras pessoas venham mudar por nós”, acrescenta.

No entanto, deixa um alerta: “A solução não é pegar numa enxada ou em pedras e correr atrás deles [Governo], a solução é o voto”, destaca, numa campanha porta-a-porta feita em língua local.

Inchope é o principal cruzamento económico do centro de Moçambique, onde se encontram a Estrada Nacional 1 (EN1), que liga o Sul e o Norte do país e a Estrada Nacional 6 (EN6), que liga o porto da Beira, no Oceano Índico, aos países do interior africano.

Habitações frágeis, feitas de estacas e barro, e uma aguda escassez de água potável em Inchope, contrastam com o volume de tráfego de autocarros e camiões de carga que dinamizam a economia do país e além-fronteiras, uma situação que está a ser aproveitada para apelar ao voto na oposição.

Há jovens trajados a rigor, há professores e comerciantes, com camisolas de propaganda do MDM – muitos vieram de cidades vizinhas – a distribuir cartazes, com o galo, símbolo do partido, ao lado da imagem do candidato presidencial, Daviz Simango.

O contacto com o eleitorado, que privilegia a língua local, uma mistura de sena e chiuté, é “curto e grosso”, além de divertido.

E quando as caravanas de partidos diferentes se cruzam em campanha no mesmo bairro, os seus membros saúdam-se, descontraídos.

Não raras vezes, os apoiantes do MDM tentam convencer eleitores vestidos de cores de outros partidos, mas sem violência, contrastando com casos reportados por diversas organizações noutros pontos do país.

Inchope “é uma zona comunitária em que as condições são muito precárias”, diz Arone Mussualho, destacando, do contacto com os moradores, os problemas de falta de água, energia, desemprego entre jovens e ausência de medicamentos nos hospitais.

“A falta de água é o problema principal e já leva muito tempo (…), já leva 44 anos”, aponta, considerando uma “mentira eleitoral” um projeto que se iniciou este mês para canalizar água para algumas habitações no Inchope.

“Agora que eles sabem que é ano das eleições, estão a começar a cavar nalguns bairros, a dizer que querem começar a pôr torneiras. É mentira. Basta vocês acabarem de votar, não põem mais nada”, frisou, no contacto porta-a-porta com o eleitorado.

Prometeu, contudo, a construção de um sistema de abastecimento para fornecer água potável, a ser captada a partir do rio Metuchira, a cerca de 10 quilómetros.

Muitos jovens locais vivem do comércio ambulante, à espera de clientela nos autocarros que passam pela aldeia.

Outros fazem blocos de barro, que alimentam o crescimento de construções noutras áreas do país.

Em uníssono, queixam-se de corrupção, pedem melhores oportunidades, ao lado de muitos que não têm nenhum emprego à vista.

O MDM denunciou ameaças contra os seus membros e a população no Inchope, que seriam alvo de perseguição – alguns até expulsos da região – caso votassem no partido, levando o partido a intensificar ações de educação cívica, realçando o princípio de que o voto é secreto.

A 15 de outubro, 12,9 milhões de eleitores moçambicanos vão escolher o Presidente da República, dez assembleias provinciais e respetivos governadores, bem como 250 deputados da Assembleia da República. Esta vai ser a primeira vez que os governadores vão ser eleitos – em vez de nomeados pelo Presidente da República -, velha aspiração da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da oposição.

A medida faz parte do acordo alcançado entre o chefe de Estado, Filipe Nyusi, e o histórico líder da Renamo, Afonso Dhlakama.

O líder da oposição morreu a 03 de maio de 2018 e estas vão ser as primeiras eleições sem ele.

Dos consensos que estabeleceu com Nyusi nasceu o acordo de paz assinado entre o Presidente moçambicano e o novo líder da Renamo, Ossufo Momade, a 06 de agosto.

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