Morna, Amor e Morte

A Opinião de Carlos Martins

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Carlos Martins, português, músico

Ondas de paixão: sonhado diálogo entre o compositor cabo-verdiano Eugénio Tavares e Kate (que chegou no iate americano Fabulous à Ilha Brava)

  1. Ondas de paixão: sonhado diálogo entre o compositor cabo-verdiano Eugénio Tavares e Kate (que chegou no iate americano Fabulous à Ilha Brava)

Eugénio: Sabes, Kate? Foram os ventos que sopram nesta Ilha que usei para a pôr em movimento pelo mar fora, em silêncio para não acordar os que dormiam. Foi assim que encontrei o teu barco no mar sem fim. Eu pertenço àquela raça de homens que namoram o céu e casaram com o mar. E agora o mar das origens, que deu vida à Terra antes de desassossegar os oceanos, circula em vertigem nas artérias do meu corpo côncavo, a recriar a vida. O que era dor metamorfoseou-se em ritual sagrado de passagem. Da tristeza fez-se luz, uma suave luz. Do vazio fez-se o silêncio que embala a saudade, a poesia próxima sedimentada na pele salgada. E foi olhar-te demoradamente que enalteceu a mudança na minha alma. Foi a força mágica das palavras que fielmente em cada nota levantou o véu do mistério sem revelar o seu secreto significado. Essa transformação fez-se música. Assim nasceu esta Morna (Eugénio fez uma pausa e dedilha os primeiros acordes na sua guitarra portuguesa). E assim viverá. Na calma depois da tempestade, na corda que vibra na fragilidade de cada um de nós. Não há destino maior nem mais fundo que amar. A profundidade revela-se à superfície e tu és o céu e o mar profundo. Nas cordas da minha guitarra quis tocar a criação, o fogo refletido na superfície dos teus olhos, o abraço entre Vénus e Apolo, o amor, os outros e o seus mundos. Kate, nha Kretcheu, quis sentir esse momento da vida onde a ordem foi quebrada e o caos se consumou criando e recriando o nosso amor e o universo. Quis tocar para ti o equilíbrio através do silêncio, entre as pausas. Com o coração a morrer criança. Longo foi este tempo sem mesura possível. E tudo num instante. Inventei esta Morna e imortalizei o nosso amor vencendo a lei da morte. Fica comigo Kate, não voltes ao barco nem ao mar profundo. O barco que parecia naufragar na prisão liquida afinal ancorou neste porto imaginado por mim. Fica, peço-te…

Kate: Não te oponhas aos poderes do meu pai. Poder-te-iam destruir. Não insistas. Não imaginas do que é capaz. Ignoras tudo o que pode fazer e desfazer. É demasiado forte para ti. Está pronto a esgotar todos recursos de todo o mal que conhece. O barco, pode fazer com que se afunde no porto. Pode fazer estremecer as paredes destas casas que nos cercam e bloquear as ruas apenas com as telhas caídas dos telhados. Pode provocar um terramoto pior do que aquele que destruiu Lisboa há muitos anos…Dás mais um passo, um único, e, sob os teus pés, o solo desta praça abater-se-á dez metros. E eu que durmo sonhando-te, naturalmente, não ouvirei os teus gritos. O meu pai não faz ideia do que pode fazer a ternura de uma rapariga que ama um rapaz. Tem medo. Preferia que esta praça se transformasse numa ilha cuja encosta seria permanentemente sacudida pela tempestade!

Beija-me. Diz-me que nos voltaremos a ver. Que regressarei sã e salva e que tu, tu vais esperar por mim. Que já estás à minha espera. Di-lo…

2. “…Deus ao mar, A profundidade e o abismo deu, Mas foi nele, Que espelhou o Céu.” Fernando Pessoa

Esta é uma ficção, criada a propósito da elevação da Morna a Património Imaterial da Humanidade, sobre uma Morna que escrevi com o Mário Lúcio para a voz da Mayra Andrade e que ficou gravada no meu CD Do Outro Lado. Lembro-me de ter chorado de felicidade quando a terminei, assim é a Morna. Este é o tema do CD que representa o melhor do mundo da lusofonia (palavra tão maltratada por tantos e ainda pelos corretamente polidos): uma morna escrita por um músico português, com letra de um poeta cabo-verdiano, que é cantada em crioulo por uma voz de mulher que canta o amor universal. Diz que mesmo que percamos a “voz”, mesmo que o sol desapareça tornando impossível a vida; mesmo que um grande amor se esfume nos acasos que o tempo nos reserva, continua a ser importante amar. Porque se o amor não habitar o nosso coração então tudo morrerá. É claramente um hino à vida e ao amor. É “uma homenagem sentida aos povos lusófonos e à sua identidade coletiva no mosaico do Mundo”. Mas acima de tudo é uma homenagem ao Povo que inventou e continua a cantar a Morna: aos cabo-verdianos! Eu aprendi a tocar mornas (e coladeras) no Alentejo com uma “cassete” do Luís Morais, que conheci mais tarde no Bana, trazida por um ex-combatente da guerra colonial, um paradoxo que traz a vida da morte. Mas foram os amigos músicos cabo-verdianos como Vasco Martins, Mário Lúcio, Mayra Andrade, Tito Paris, Paulino Vieira, Humberto Ramos ou Nancy Vieira, entre outros, que me ensinaram sentir a Morna. Porque eles são os maravilhosos frutos de uma cultura de abertura, de coragem, de cidadania, de sensibilidade e de amor. São eles também que ainda hoje ajudam a menorizar, tanto quanto é possível, o racismo, a xenofobia e as más derivas que voltam a assombrar-nos. Sim, a Morna nasceu para salvar o Mundo.

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