Artistas cabo-verdianos manifestaram-se hoje orgulhosos e felizes com a classificação da morna como Património Imaterial da Humanidade da UNESCO, esperando que, a partir de agora, o género musical tenha mais atenção e seja ensinado nas escolas.

Em declarações à Lusa, Aniceto Gomes, construtor de instrumentos musicais, natural de São Tome e Príncipe, mas residente em São Vicente, disse que está contente com a classificação da morna, tendo recebido um convite para uma apresentação na quinta-feira na casa da Cultura de Cabo Verde, em Lisboa.

“Estamos todos felizes. Como artista, louvo esta classificação e é um grande passo para Cabo Verde”, afirmou Aniceto Gomes, que se dedica à construção de instrumentos há 37 anos, tendo já vendido as suas criações a muitos artistas cabo-verdianos e estrangeiros.

Orgulho, honra e felicidade. É este o misto de sentimentos manifestado por Carlos “Gubassa” Santos, músico semiprofissional, natural da Boa Vista, uma das duas ilhas onde se diz que surgiu o género musical, a par da Brava, no século XIX.

Carlos Santos salientou que “não é por caso” que se diz que a morna nasceu na Boa Vista, uma vez que é uma versão que passou de geração em geração e também porque foi na ilha onde se constatou as várias vertentes do género musical, desde a melancolia, à tristeza e à saudade.

De qualquer forma, o músico considerou que é preciso documentação para confirmar essa versão, entendendo que a classificação como património da humanidade poderá dar passos nesse sentido e “desencadear” outros processos para a valorização do género musical típico de Cabo Verde.

A morna foi proclamada hoje Património Imaterial Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO, na sigla inglesa), na 14.ª reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que decorre desde segunda-feira no Centro de Congressos Agora, em Bogotá, Colômbia.

Natural da ilha de São Nicolau, Adilson “Didi” Rodrigues, multi-instrumentista, compositor e cantor, disse que o seu sentimento é de “muita alegria”, visto que era algo que já estava à espera e que há muito que a morna “merecia” mais atenção.

A partir de agora, o músico considerou que classificação vai trazer “muita coisa” à música e à cultura, continuando a levar o nome do país além-fronteiras, tal como fez a Cesária Évora e Paulino Vieira, este também natural da ilha de São Nicolau.

“Vai trazer muita coisa boa e vai fazer com que a morna tenha mais atenção dos mais novos e também seja ensinada nas escolas”, pediu Didi Rodrigues.

Músico e professor de piano, natural da ilha de Santiago, Zeca Couto disse também que a elevação da morna é motivo de orgulho para todos os cabo-verdianos, mas salientou que mesmo que não fosse reconhecida a nível internacional, já é o “género único” que une a Nação cabo-verdiana.

A partir de agora, considerou que o género musical vai ter mais solicitações e sugeriu a criação de um grupo de trabalho para a criação de documentos musicais, como partituras, para que possa ser ensinada de forma científica.

“Neste momento, qualquer cabo-verdiano sente-se realizado. É o género único de Cabo Verde, que merece ser realçado”, salientou o professor Zeca Couto, notando que, desde que a morna foi indicada na lista de património, há um mês, que passou a ser mais divulgada no país.

“A morna virou moda agora”, brincou o músico, entendendo que a música “rainha” de Cabo Verde vai passar também a ser mais respeitada.

O dossiê de candidatura a Património Imaterial Cultural da UNESCO, com mais de 1.000 páginas e cerca de 300 entrevistas, foi formalmente entregue pelo Governo cabo-verdiano em 26 de março de 2018.

Marcada pelas letras do poeta Eugénio Tavares (Brava, 1867 – 1930) e mais de tarde de Francisco Xavier da Cruz ou ‘B.Léza’ (São Vicente, 1905 – 1958), a morna conheceu o seu expoente maior fora de Cabo Verde através da cantora César Évora (1941 – 2011), que através daquele género musical abriu as portas do mundo a um país de pouco mais de meio milhão de habitantes.

A morna surge de uma mistura de estilos musicais com fortes raízes africanas, o landum, com as influências da modinha luso-brasileira, recorda o dossiê de candidatura.

Interpretada em crioulo cabo-verdiano por uma voz solista, homem ou mulher, apesar de existirem também mornas apenas instrumentais, versa temas “lírico-passionais”, produzindo uma “canção melancólica, muito vinculada ao sentimento do amor, ao sofrimento, à saudade, à ternura, à tristeza, à ironia e à boa ou má sorte do destino individual”.

Geralmente acompanhada por viola, cavaquinho, violino e piano, o “instrumento de excelência da morna” é o violão, introduzido em Cabo Verde no século XIX.

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