Salimo Chingu, 52 anos, chefe tradicional de Monjane, mostrou à Lusa os locais da aldeia onde foram encontrados os corpos de cinco residentes numa das noites mais sangrentas da vaga de violência em locais isolados do norte de Moçambique.

Os dez homicídios em Nangamede e Monjane, a 27 de maio, incluíram decapitações numa ação atribuída a um grupo de alegada raiz islâmica, o mesmo que, através de diferentes células, se suspeita estar por detrás dos outros ataques a aldeias remotas da província de Cabo Delgado que têm acontecido desde outubro de 2017 – após um cerco inicial de dois dias à vila de Mocímboa da Praia que resultou na invasão de postos de polícia e no homicídio de dois agentes.

As incursões desde o último domingo de maio até esta sexta-feira já provocaram entre 35 a 40 mortos, segundo informações oficiais das autoridades e testemunhos da população à Lusa.

Monjane é a típica povoação da região, acessível apenas por trilhos de terra ou areia, longe da eletricidade e sem infraestruturas, feita de blocos de barro e capim, lar para 2.200 pessoas, no meio do mato, perto do mar. Quando o grupo armado com catanas e armas de fogo chegou, começou a saquear “habitações e barracas” de venda informal, descreve Salimo com a ajuda de Momade, um dos poucos moradores que fala português.

Sob o luar, entravam, levavam comida e valores. E quem resistia ou fugia, acabava morto, como o primeiro secretário local da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder em Moçambique, baleado no quintal de casa – dos cinco mortos, era o único com um cargo de relevo na comunidade.

Salimo, Momade e a pequena multidão que os rodeia no centro da aldeia ficam em silêncio quando se questiona a origem destes agressores. Nassurulahe Dulá e Saide Bacar, dois dos dirigentes muçulmanos ouvidos pela Lusa nos últimos oito meses, em Pemba e Montepuez, respetivamente, culpam líderes religiosos estrangeiros que desde 2014 instalam novas mesquitas para pregar um islamismo oposto ao que tem sido tradição em Moçambique, renegando ao poder do Estado e impondo uma ‘sharia’ – lei fundamentada nas escrituras sagradas e opiniões de líderes religiosos.

Limitam as liberdades de mulheres e crianças, que afastam da escola formal, e a par dessa ‘sharia’ promovem violência armada com objetivos obscuros, avisam os moradores.

“Já fizemos muitas vezes um trabalho de combate a estes grupos”, alertando “para que ninguém se junte a eles”, mas o aliciamento resulta, sobretudo em zonas onde vive gente de fraca escolaridade e baixo rendimento, aponta Nassurulahe Dulá.

Após insistência nas perguntas, Salimo recorda que um desses líderes quis abrir há tempos uma mesquita em Monjane, mas não conseguiu, porque a população se opôs à prática de costumes religiosos diferentes dos que pratica. Essa mesma pessoa ou um dos seus associados terá sido detida há poucos dias pelas autoridades, acrescenta, depois de as suas propriedades terem escapado ao ataque à aldeia, apesar de serem das mais ricas, o que motivou a desconfiança da população.

Um trabalhador muçulmano em Palma, sede de um dos distritos afetados, é natural de Olumbe, povoação próxima das aldeias atacadas, e fala de apoios como moeda de troca. Na sua comunidade, de etnia mwani, umas das predominantes na região, tomou conhecimento de negócios financiados por novos líderes islâmicos que, em contrapartida, pediam lealdade às mesquitas que iam instalando.

“Eles diziam: se rezar nessa nova mesquita, vamos dar dinheiro para fazer negócio. Vamos ajudar”, conta à Lusa. Mas nem todos os que obtiveram financiamento para um novo barco de pesca ou carrinha para transporte informal terão aceitado mais tarde cumprir ordens, abrindo terreno para conflitos.

No dia seguinte ao ataque inicial a Mocímboa da Praia, por um grupo de cerca de 30 homens que integrava membros da mesquita “insurgente” daquela vila, uma outra dessas novas mesquitas, em Olumbe, “foi destruída pelos próprios que a construíram”, conta.

“Eles rezavam lá” e o facto de a derrubarem sem se perceber porquê, após a insurreição em Mocímboa, algumas dezenas de quilómetros a sul, levou a população a concluir que “eram do mesmo grupo”, que desapareceu nas matas, encobrindo rastos e ligações: ninguém sabe “quem é o patrão” nem que ordens dava.

João Pereira, Salvador Forquilha e Saide Habibe, autores de um estudo preliminar sobre “Radicalização Islâmica no Norte de Moçambique” apresentado em maio, em Maputo, referem que o dinheiro para aliciar membros vem de redes de tráfico ilícito de madeira, rubis, marfim e carvão em Cabo Delgado.

Redes em que “os líderes do grupo estão envolvidos”, redes que alimentam também outras estruturas no estrangeiro, “por exemplo, os comandos de milícias no Congo, Somália, Quénia e Tanzânia”, numa dinâmica que pode servir também para comprar armas, refere João Pereira

O investigador acrescenta que preservar os negócios ilícitos será um dos principais objetivos do grupo que, para lá disso, não tem “uma doutrina muito bem elaborada”, apesar de ter justificado o seu surgimento com o facto de as comunidades locais “não praticarem um Islão da linha do profeta”. Até esta hoje, também ainda não emergiu nenhum líder, nem houve reivindicações após qualquer um dos ataques que ajudem a clarificar os objetivos da violência.

Um artigo publicado em abril pela organização Global Initiative, com sede em Genebra, acrescenta que o tráfico de heroína oriunda do sul da Ásia com destino à Europa e África Austral passa por Cabo Delgado e os ataques podem ser reflexo de movimentações quanto ao controlo das rotas.

As primeiras referências ao grupo surgem como Ahlu Sunnah Wa-Jamâ, ou seja, “adeptos da tradição profética e da tradição”, com líderes da etnia mwani ligados a círculos religiosos, comerciais e militares de grupos islâmicos radicais na Tanzânia, Somália, Quénia e região dos Grandes Lagos, refere o estudo divulgado em maio.

Torna-se visível como movimento religioso maioritariamente constituído por jovens islâmicos oriundos de Mocímboa da Praia e distritos circunvizinhos”, passando a população a chamar-lhe Al-Shabaab (que quer dizer juventude, em árabe) numa alusão às ideias e aparência.

Admite-se que a base social seja motivada a aderir por viver em condições sociais degradantes, sentir exclusão política, nomeadamente da etnia mwani em relação à etnia maconde, bem como por falta de espaço nas mesquitas locais para quem foi formado fora do país, entre outras razões.

No final de 2015, o grupo passou a incorporar células militares, treinadas por 30 a 40 elementos que tinham sido enviados para a região dos Grandes Lagos com a missão de receber formação por milícias cujos chefes eram contratados pela rede Al-Shabaab da Tanzânia, Quénia e Somália, lê-se na pesquisa.

Cesário da Silva, chefe de uma aldeia nos arredores de Montepuez, contou à Lusa depois do ataque a Mocímboa que ao longo do último ano tinha perdido de vista 30 pessoas da comunidade, incluindo casais com filhos, que se teriam mudado para campos de treino escondidos no mato.

“Há pessoas que fugiram de lá [do treino] e que nos forneceram dados sobre o que se passa: iam para integrar [o grupo], mas quando lá chegaram não encontravam a religião, só tráficos e matanças”, detalha à Lusa o xeque (chefe muçulmano) Saide Bacar.

A 06 de maio, a polícia moçambicana anunciou ter recolhido em Nangade, perto da fronteira com a Tanzânia, três mulheres foragidas do esconderijo de uma das células armadas que tem atacado aldeias. O que esconde o mato continua a ser um desafio, até para as autoridades.

A Polícia da República de Moçambique (PRM) tem anunciado desde os homicídios de 27 de maio que os ataques estão agora a ser feitos por um número reduzido de elementos que tenta sobreviver, alegando que o grupo tem sido desmembrado pelas autoridades, com centenas de pessoas já detidas desde outubro de 2017.

“Este é um grupo que foi amplamente fragilizado” e os últimos crimes representam “um total desespero em tentar buscar algum protagonismo”, refere Inácio Dina, porta-voz da PRM, contrariando a ideia de que esta escalada de violência signifique um aumento da ameaça à segurança em Cabo Delgado.

Apesar das detenções, não tem havido esclarecimentos, além da divulgação pelas forças de segurança, em dezembro, dos nomes de dois moçambicanos, Nuro Adremane e Jafar Alawi, como supostos organizadores do ataque inicial a Mocímboa da Praia, hoje em parte incerta, depois de estudarem doutrinas religiosas e receberem treinos militares na Tanzânia, Sudão e Arábia Saudita.

Os ataques irromperam numa altura em que estão a avançar as obras para exploração de gás natural em Cabo Delgado, prevendo-se que a produção arranque dentro de quatro a seis anos, no mar e em terra, com o envolvimento de algumas das grandes petrolíferas mundiais. A vaga de violência tem deixado intacto o perímetro de construção da fábrica de liquefação de gás e estruturas associadas na península de Afungi, distrito de Palma, investimento que envolve a Andarko e a Eni, entre outras empresas internacionais do setor.

Depois do cerco inicial a Mocímboa da Praia, os ataques afastaram-se do asfalto, da eletricidade e das infraestruturas: parte das respostas sobre a natureza da ameaça escondem-se algures, no meio do mato, no norte de Moçambique. Outra parte reside em países vizinhos, como a Tanzânia, com o qual é visível uma forte ligação no quotidiano, dada a proximidade da linha de fronteira, enquanto Maputo fica quase dois mil quilómetros a sul.

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