Nigéria ou África do Sul? Angola!

A Opinião de Adebayo Vunge

0

A Nigéria e a África do Sul são incontornavelmente as duas grandes potências da África Subsariana, quiçá de África no seu todo. São dois países com realidades singulares e que se confrontam agora com a liderança, seja em termos económicos, seja em termos políticos, do continente e da região.

As estatísticas têm sido bastante variáveis, colocando ora um, ora outro, na alavanca regional. Em 2014, fruto de uma revisão da sua metodologia de cálculo, a Nigéria ultrapassou, em termos de PIB, a África do Sul. Agora, com a queda do preço do petróleo, o país de Nelson Mandela voltou ao topo. Adivinhando-se uma reformulação do Conselho de Segurança da ONU, África deverá conquistar um ou dois assentos e esta briga entre os dois países poderá assumir outros contornos. Por ora, o que temos em cada um dos países?

A África do Sul é dona de uma indústria muito forte e da economia mais diversificada do continente. Isso explica porque as suas empresas (bancos, telecomunicações, energia e minas, agro-alimentar, transportes e turismo) aparecem invariavelmente de modo massivo em qualquer ranking ao nível continental. Taxa de inflação abaixo dos dois dígitos (cerca de 6,3 por cento em 2016), este país da região austral tem também o maior nível de electrificação do continente com um potencial de 40.000 MW (ao contrário da Nigéria que tem apenas 6.000 MW).

Mas este país conhecido agora pelo arco-íris na sua bandeira, não é um paraíso. Poderia ser, mas fruto do seu passado, com a marca do regime do Apartheid, enfrenta ainda sérios desafios do ponto de vista social e político. A pobreza e o desemprego continuam a assolar largos segmentos da população, principalmente a população negra, o que se agudiza ainda mais com os laivos de xenofobia contra comunidades de emigrantes africanos, especialmente congoleses e nigerianos. Também a criminalidade, nas grandes cidades, com destaque para Joanesburgo, é um problema sério que afecta a reputação do país, sendo apenas comparável com as piores cidades da América Latina.

Do ponto de vista político, o ANC tem vindo a enfrentar algumas crises internas desde a defecção de Jules Malema até à baixa popularidade do Presidente Jacob Zuma que tentará, em Dezembro próximo, fazer eleger a sua candidata Nkosazana Dlamini-Zuma que está assim na órbita para se tornar a primeira mulher Presidente do seu país e da região Austral, depois de uma passagem pouco expressiva pela Comissão da União Africana.
E o que vemos da Nigéria? O país de Wole Soyinka conseguiu dar a volta à onda de golpes de Estado que sacudiu o país e pode-se inferir que vive agora um momento de estabilidade, com a eleição de um candidato que nada tinha a ver com a situação, o general Muhammadu Buhari, que já tinha sido Presidente após um golpe de Estado. Buhari, pode dizer-se, tem vindo a conseguir reduzir o espaço do movimento terrorista Boko Haram, que tinha conseguido grandes avanços durante o mandato do seu predecessor.

A sua estabilidade política, fruto do aumento da sua maturidade democrática, contrasta com o cenário em termos sociais e políticos. A Nigéria é um vulcão populacional com os seus 186 milhões de habitantes. Seguindo a actual tendência de crescimento da população, segundo as projecções, até 2050 poderá deter a terceira maior população mundial , depois apenas da Índia e China e antes dos Estados Unidos da América. No entanto, os seus quadros estão em quase todas as organizações internacionais, confirmando assim uma melhoria assinalável do seu “softpower”.

Do ponto de vista económico, o petróleo representa 90 por cento das suas exportações e 70 por cento das receitas orçamentais, situação que se agudizou depois da crise do preço do petróleo, com consequências nefastas para a política monetária e consequente aumento do custo de vida.

No período em que esteve ausente o Presidente Buhari, em tratamento médico em Londres, o seu vice-Presidente, um cristão do sul, Yemi Osinbajo, apresentou um ambicioso plano destinado a relançar o crescimento económico da Nigéria para os 7 por cento do PIB anualmente e a criação de 15 milhões de postos de trabalho até ao fim do seu mandato. O referido plano apresenta medidas audaciosas: vender parte dos activos petrolíferos do Estado, aumentar a produção do petróleo para os 2,5 milhões de barris por dia, a introdução de um regime de livre-câmbio determinado pelo mercado e intensificar a diversificação da economia.

São estes dois países que vivem sérios desafios políticos, como económicos e sociais que se afrontam na cena internacional pela liderança referencial de África. Não teremos nós espaço para entrar nesta corrida? Acredito piamente que sim, basta que continuemos o caminho do crescimento, de melhoria dos indicadores sociais, de abertura e flexibilização ao investimento estrangeiro directo e de promoção da diversificação da economia. Nós que não temos nem xenofobias nem conflitos religiosos, teremos outros problemas, mais facilmente solucionáveis. Esta é matéria para think-tanks se pronunciarem de modo profundo.

Publicidade