Quando chegou à Google em 2014, Brian Stevens encontrou uma das equipas de tecnologia mais incríveis que alguma vez viu – palavras do próprio -, mas que estava perdida no seu trabalho.

“A Google não é um grupo de pessoas que aceita uma missão sem entendê-la, mas a cloud e o mercado empresarial não foram muito bem entendidos na altura”, explicou o diretor de tecnologia (CTO) da área de computação na nuvem, em entrevista à Insider.

Na prática, a Google não percebia que serviços de cloud as empresas precisavam e que apoio tinham de garantir – a gigante, que tem algumas das mentes mais brilhantes do mundo, também ainda não tinha percebido que precisava de construir um ecossistema de parceiros no mundo da cloud.

“Era bom para as empresas tecnológicas, mas não respondia às necessidades de ajudar todos os outros a tirarem vantagem dos serviços cloud. O meu papel era virar isto para o mercado empresarial e focar na construção e lançamento de produtos. Ajudei a equipa de engenharia a entender o porquê, onde estava a oportunidade e mostrei que havia um modelo para o consumo da cloud empresarial”.

Quatro anos depois e a música é outra. A cloud é neste momento vista como a próxima grande mina de ouro da tecnológica de Mountain View e já está a gerar mais de mil milhões de euros a cada trimestre. Segundo previsões do Citigroup, em 2020 o negócio de cloud deverá representar 15 mil milhões de euros por ano para a Google.

“Agora vês as provas do tamanho do mercado e como a cloud é o futuro para todas as empresas e não apenas as de tecnologia, os funcionários da Google já veem isso”, sublinhou Brian Stevens.

Apesar da grande aposta que está a ser feita e da transformação que isso exigiu, a Google continua muito atrás dos seus principais concorrentes. Dados de outubro do Synergy Research Group revelam que a Google tem 7% de quota no mercado cloud, a Microsoft 14% e a Amazon 34%, para quem este filão já vale mais de 20 mil milhões de euros por ano.

Muita desta ‘loucura’ em torno do mercado de cloud justifica-se por uma mudança de comportamento. Antes as empresas apostavam na cloud apenas para reduzir os seus custos com infraestrutura tecnológica – agora não.

“As empresas não estão a procurar propriamente como mudar o custo do negócio, é mais sobre criar serviços diferenciadores na cloud para serem competitivos. Depois introduzes analítica, aprendizagem automática, constróis novas aplicações e torna-se numa conversa sobre tecnologia e negócio. O custo realmente importa, mas na maioria dos casos o valor e as soluções que consegues criar para o teu negócio ao trabalharem juntos são o principal factor de mudança”.

Foi também já sobre a liderança tecnológica de Brian Stevens que a Google deu um passo importante nesta área: criou uma nova tipologia de processadores pensada especificamente para computação na nuvem e otimizada para tarefas de inteligência artificial, apontada por muitos como a próxima grande revolução tecnológica, nos negócios e não só.

As chamadas unidades de processamento tensor (TPU) permitem às empresas ter uma muito maior capacidade de processamento e de forma eficiente. Estes TPU vão, nos próximos anos, democratizar a criação de modelos de inteligência artificial a empresas que em condições normais não teriam a capacidade para investir em infraestrutura para esta missão.

“Nem tudo é sobre criar negócios de 100 mil milhões de dólares, algumas coisas são apenas melhores experiências de utilização, mas executar isso tudo em máquinas clássicas era muito dispendioso. Os TPU foram desenhados para serem especializados em inteligência artificial, para diminuir o custo e aumentar a escala. Consegues processar mais informação e o custo é mais baixo”.

A Google também está a criar os chamados Edge TPU, microchips que podem ser integrados numa grande varidade de equipamentos e que lhes permitem ter uma vasta capacidade de análise de dados em tempo real.

“Vais ter aprendizagem automática no teu carro. Vais tê-la dentro das lojas de retalho. A análise de vídeo também vai mudar – não queres enviar todo o teu vídeo para a cloud para ser processado, é demasido caro para o valor que entrega. No futuro, as câmaras que estiverem a captar vídeo, analisam-no imediatamente e vão fazer previsões no local”.

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