O combate à criminalidade tão importante quanto as reformas

A Opinião de Filomeno Manaças

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Filomeno Manaças, angolano, jornalista

Vagueando pelas notícias da comunicação social e pelas imagens divulgadas nas redes sociais nestas últimas duas semanas e meia, podemos inferir como, num primeiro momento, o estado de choque se apossou das pessoas devido à onda de crimes violentos que assolou a capital e, na sequência, o estado de apreensão generalizada que se instalou, suscitando as mais diversas reações.

Três crimes, em particular – o assalto na Baixa de Luanda, o ocorrido no Cassenda e o terceiro, no Alvalade, em que as vítimas foram brutalmente assassinadas pelos meliantes, com o objetivo de se apoderarem de valores monetários -, levaram as autoridades a anunciar medidas e a reagir de imediato, pondo em marcha uma operação que não tardou a surtir efeitos em termos de resultados concretos e, por arrasto, com impacto psicológico positivo no público.

Neste segundo momento, através das imagens divulgadas pelas redes sociais, vimos como vários indivíduos portadores de armas (pistolas e AK-47) e fazendo-se transportar em motorizadas, foram neutralizados pela Polícia Nacional. A ação da Polícia incidiu, também, sobre veículos ligeiros, igualmente utilizados para assaltos armados a gente que, acreditando estar a ser servida por alguém que se dedica ao serviço de táxi para juntar, de forma digna, algum dinheiro para o seu sustento e da família, acaba por cair na mais reles armadilha e depois vê-se a braços para se livrar dela sã e salva.

Luanda está cheia de relatos de casos do género, qual deles o mais horripilante!

Em relação às viaturas ligeiras e aos hiaces com vidros fumados, muito já se falou e escreveu sobre a necessidade de uma intervenção das autoridades policiais para banir essa prática. Não pode ser toda e qualquer viatura autorizada a circular nessas condições, como se assiste atualmente. Há que velar, por isso, tal como é preciso olhar para algumas matrículas que não permitem a sua clara identificação, porque o proprietário da viatura entendeu que devia “estilizá-las”, esquecendo-se que ela é um elemento de informação importante do veículo e que não pode deixar dúvidas a quem quer que seja. É assim noutras paragens, mas, por cá, a desordem instalou-se, cada um faz o que bem lhe dá na telha.

Neste novo ciclo de governação, combater a criminalidade e, fundamentalmente, a criminalidade violenta, é tão importante quanto implementar as medidas de reforma económica, política e social em curso destinadas a instituir um novo país.

Dure o tempo que durar, a intensidade desse combate não pode, não deve, resumir-se a três semanas de operações, seguidas de períodos de relaxamento durante os quais os criminosos voltem a pôr de novo a cabeça fora da toca e a sacudir a cidade com violência extrema. Não importa qual a origem nem os fatores que estão na sua base, que é o terreno para o qual certos políticos gostam de levar a análise do fenómeno, como se estivessem a descobrir a pólvora, a verdade é que a criminalidade violenta está a ceifar vidas humanas e o Estado não pode, de modo algum, compactuar com situações que põem em causa a paz social e ferem gravemente os princípios da convivência em sociedade.

A crise económica e a falta de empregos não podem tudo justificar, nem um político que se preze deve ver nisso motivo para ir à televisão tentar justificar os assaltos à mão armada com mortes violentas de cidadãos no meio, porque, entretanto, interessa-lhe essa perspetiva de abordagem para atirar as culpas para o Executivo, para capitalizar ganhos em termos de simpatia do público para a sua formação.
Qualquer que fosse o partido que estivesse agora no poder teria de confrontar-se com o atual contexto de crise, de recessão económica, e por mais propaganda que fizesse as medidas não seriam diferentes.

O paradigma para fazer face à crise não pode ser a tentação para o mais fácil e hediondo. As energias e inteligências devem estar ao serviço da produção do bem comum. O país é tão vasto e são também inúmeras as possibilidades de realização pessoal, que é nesse sentido que todos devemos trabalhar.

As oportunidades para negócios não estão só em Luanda. Um post que circula nas redes sociais há algumas semanas dá conta que os jovens com dificuldades de emprego podem explorar com sucesso o segmento da distribuição de produtos agrícolas do campo que não chegam facilmente às cidades, “porque os agricultores não têm capacidade financeira para trazer os seus produtos para os locais de escoamento”. Aponta como exemplo a província do Zaire, mais concretamente a vila de Tomboco, que produz 50 mil toneladas de laranja por ano, além de banana pão, ananás, tangerina, mandioca, inhame, batata doce, entre outros, que às vezes apodrecem por falta de transportação. No Nzeto a dificuldade está em comercializar o peixe. Quem fala do Zaire fá-lo, também, em relação a outras províncias, como o Bié, Malanje, Huambo, Uíge, Cuanza -Norte, Benguela e por aí adiante, cujas produções agrícolas apodrecem muitas vezes nos campos.

Para concluir, é tempo de arregaçar as mangas, é tempo de trabalhar e deixar a vida fácil para trás, é tempo de tolerância zero para o crime.

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