“O racismo é burrice” *

A Opinião de Adebayo Vunge

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Adebayo Vunge, angolano, economista

“Enquanto a maioria das crianças é prova do amor de seus pais, eu era a prova do crime”, é assim que começa Sou um crime, a autobiografia de Trevor Noah, o apresentador de origem sul-africana do The Daily Show – um dos mais mediáticos, e bem conseguidos, late-night talk show da televisão americana, e do mundo, especialmente entre as audiências mais jovens.

Trevor Noah, numa autobiografia simples mas muito intensa, mergulha-nos no que foi a sua infância e a vida diária nos subúrbios de Joanesburgo durante (no final) e nos primeiros anos do pós-apartheid?! E o seu crime, pode-se dizer, começa exatamente na origem, ou seja, o facto de ter nascido de uma mãe negra, de etnia Xhosa, e de um suíço branco. Está aqui, aos olhos das autoridades de então, uma união proibida (relações inter-raciais estavam proibidas no regime de apartheid e eram punidas com cinco anos de prisão).

“O racismo é o crime perfeito: quem o comete acha sempre que a culpa é da vítima”, afirmou, recentemente, a ministra da Justiça de Portugal de origem angolana, Francisca Van-Dúnem.

E o racismo é crime e é estupidez. A manifestação de pequenez e do absurdo do ser humano que valoriza a maior ou menor concentração de melanina. Podemos assumir que na história da humanidade, há três episódios que criaram o fenómeno e lhe deram o contorno que ainda subsiste hoje.

Em primeiro lugar está a escravatura e o colonialismo. O ato colonial, para além da subjugação de um ou vários povos pelo invasor, tinha o condão de estar arreigado a discriminação pela cor da pele e à construção de modelos de sociedade muito assentes na valorização deste aspeto.

O segundo episódio tem a ver com a ascensão do Terceiro Reich. Hitler procurou a todo o custo defender a superioridade do homem caucasiano (Volksgemeinschaft). Todos os demais eram, para ele, seres inferiores que deveriam subjugar-se ou mesmo ser eliminados.

O terceiro fenómeno é o apartheid. Pode-se dizer que é a consequência ou os resquícios dos dois primeiros e que procurou materializar o máximo possível a separação das pessoas. O ato colonial foi “assustadoramente tímido” ao lado do que se passou na África do Sul, depois de 1948, com a eleição do Partido Nacional, de J.B.M Hertzog, e, depois, de Frederich Willem de Klerk.

E é este o relato que se confirma, num tom bastante irónico, ao estilo de uma trágico-comédia, no auto-retrato de Trevor Noah, o comediante sul-africano que, em 2015, substituiu Jon Stewart – que conduzia o programa desde 1999 e que é uma das figuras conhecidas e reputadas dos States.

No apartheid, Noah, viveu sempre marcado pela particularidade de ser rejeitado pelos negros e pelos brancos. Ele era um métis ou “de cor” que “escolheu o seu lado”: desde cedo que se considerou negro.

“O racismo existe e você tem que escolher o seu lado. Você pode dizer a si mesmo que não escolhe o seu lado, mas a vida inevitavelmente o levará a escolher um deles”, escreve na terceira parte de Eu um crime.
De resto, traça-nos um perfil do quotidiano, como a pobreza entre a população negra, um sistema educacional de várias camadas, o estado policial e violência resultante – cujas consequências assumem hoje contornos incontestáveis. Este livro é, ainda, uma verdadeira bandeira ao empoderamento das mulheres, uma justa homenagem à sua mãe.

Foi também enquanto terminava a leitura deste livro, que estive no Brasil a participar de uma conferência, coincidentemente no Dia de África, e juntando, principalmente, afro-brasileiros. Na verdade, foram três dias de fecundo contacto com ativistas do movimento negro no Brasil, e o relato que nos traçam é inequivocamente repugnante em pleno século XXI, num país que se quer tornar uma potência. Mais do que as desigualdades sociais e económicas, é o facto de haver uma tendência em reduzir-se, confinar-se mesmo, o papel do negro na sociedade brasileira – o que é também notório em alguns sinais e posturas, no mínimo estranhas, mas que confirmam absolutamente uma violência e uma visão retrógrada do ser humano. É um fenómeno que faz-nos lembrar, em grande medida, o que se assistiu nos Estados Unidos da América, fundamentalmente nos anos 50, 60 e 70 do século passado.

E voltando a Francisca Van-Dúnem, também é dela a ideia de que “a maior expressão de preconceito racial consiste na negação deste preconceito”. Uma ideia que explanou num debate promovido pelo Parlamento português, onde se aludiu à pertinência de se avançar para um regime de quotas que permita aos portugueses afrodescendentes terem um maior acesso aos lugares políticos, segundo uma proposta dos partidos da esquerda, em especial, do Socialista (PS – que pretende também ser reeleito para a governação).

É claro que este fenómeno, o racismo, é social não necessariamente humano. É uma construção que ganhou ideologia e fundamentação no século XIX e XX, na tentativa de configuração de uma nova ordem política, económica e social. É por isso que notamos a sua persistência acentuadamente em países como os Estados Unidos da América e o Brasil, não obstante a forma como estes Estados foram construídos.
Falo em particular do Brasil onde a maioria da população está confinada a um lugar menor na sociedade e a tentativa de correção da História e numa altura em que os seus resultados começavam a dar frutos, existe um movimento retrógrado, que a pretexto da economia, sente-se ameaçada pela sua ascensão e mobilidade.

Em Angola, infelizmente, o racismo também é um tema tabu. Ninguém aceita falar com medo dos rótulos. Muitos de nós têm dificuldades em aceitar que o processo de afirmação de uma população maioritariamente negra deve refletir-se também em mais e melhores oportunidades, sendo a educação a trave mestra para o combate às desigualdades sociais e raciais. E, por isso, em tom de polémica, não posso ainda achar normal que, por exemplo, no sector bancário – seja por culpa do lobby português ou ainda por inépcia da nossa parte (angolanos) – tenhamos os Conselhos de Administração e Comissões Executivas lideradas esmagadoramente por estrangeiros e brancos. E, receio que o mensageiro seja a vítima, mas temos de nos questionar porquê e como inverter isto. Porque há entre nós muita gente com grande expertise.

* Frase de Gabriel Pensador

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