Maria “Zita” Fernandes é vendedora ambulante, com banca habitual no mercado do Sucupira, o maior mercado a céu aberto de Cabo Verde, mas há duas semanas instalou o negócio na rua principal de Achada Grande Frente, na cidade da Praia.

E ainda foi a tempo de ver todo o frenesim de carros, trabalhadores, martelos elétricos, berbequins, que resultou na escultura em baixo relevo de Amílcar Cabral, feita pelo conceituado artista português Vhils, na parede da escola secundária do bairro.

Maria Fernandes viu a obra arrancar e terminar, e agora, entre uma venda e outra, assiste à curiosidade das pessoas quando passam pelo bairro, o primeiro para quem chega à capital de Cabo Verde tanto via aeroporto como via Porto da Praia.

“Tem havido muito movimento. Muitas pessoas param aqui para ver o trabalho. Dizem que ficou bonito, todos os carros param aqui e as pessoas tiram fotos”, afirmou à agência Lusa, esperando que o ‘retrato’ de Cabral venha a atrair mais clientes para o negócio de venda de roupas e sapatos.

Quem também viu todo o processo foi José Pina da Luz, 40 anos, natural da ilha Brava, mas morador em Achada Grande Frente há 11 anos, numa casa mesmo em frente à escola onde Vhils esculpiu o rosto de Cabral, líder histórico da independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

A partir de agora, vai poder ver a imagem todos os dias, de manhã à noite, esperando que com o tempo possa atrair mais movimento e mudar a imagem da comunidade, que é essencialmente piscatória, mas que enfrenta vários problemas, como desemprego e delinquência juvenil.

“Acho que é uma obra bonita, muito atraente. As pessoas que passam por aqui tiram muitas fotografias e também é uma obra que vai ser muito recordada pelos mais novos, que terão uma ideia de quem é o homem retratado, o que fez por Cabo Verde”, entendeu José da Luz.

O artista português foi convidado pelo projeto comunitário Xalabas di Kumunidadi, implementado pelas associações cabo-verdianas África 70 e Pilorinhu e financiado pela delegação da União Europeia em Cabo Verde.

Zelito Fernandes, morador em Achada Grande Frente, também é secretário da Associação Pilorinhu, que disse tem como lema “Cabral como unificador dos povos”.

“Há muita história que as pessoas precisam conhecer, porque nas escolas não se ensina quem é o verdadeiro Amílcar Cabral. Isso é conseguido através de pesquisas”, disse Fernandes, que destacou ainda a resistência da escultura no mural do liceu de Achada Grande Frente.

“É muito interessante, é uma obra duradoura, e o mais interessante também é que foi feita numa escola, o que vai fazer as crianças interessarem-se mais pela figura e pela história de Amílcar Cabral”, perspetivou o jovem morador.

Para Mariangela Fortuno, coordenadora do projeto Xalabas di Kumunidadi, a ideia de convidar Vhils sempre foi um desejo do programa de arte urbana, que já trouxe a Cabo Verde artistas como Nemo’s (Itália), Paula Plim (Brasil), Finok (Brasil-Espanha), Ananda Nahú (Brasil), Falko One (África do Sul), Bankslave (Qénia), Dreph (Reino Unido).

A coordenadora disse que o projeto pretende resgatar a autoestima da comunidade e das pessoas e reconhecer as potencialidades existentes “que às vezes ficam um bocadinho escondidas atrás dos problemas sociais e económicos que o bairro enfrenta”.

“É um bairro pobre, problemático, mas ao mesmo tempo com muitas potencialidades. E a arte urbana serve também para isto, para mostrar as oportunidades e criar uma nova oferta, uma nova razão para vir a Achada Grande Frente”, salientou.

Durante uma semana, em outubro, Vhils e a sua equipa participaram em residências urbanas, tendo mesmo ficado a morar por esse período em casas locais.

A ideia, segundo Mariangela Fortuno, é os artistas conhecerem o meio, o país, o bairro e as pessoas. “Há uma troca de ideias sobre a identidade do local”, reforçou, dizendo que retratar Amílcar Cabral foi algo de “extrema importância”.

A coordenadora do Xalabas disse que a programa já tem visibilidade nacional e alguma internacional, mas que o carimbo do Vhils já está a projetar ainda mais o projeto.

Mariangela Fortuno referiu que o Vhils usa uma técnica muito particular de escultura com martelo elétrico, que deixou as pessoas muito surpreendidas, sendo que muitas não percebiam porque é que ele estava quase “a estragar” a parede.

“Só quando o trabalho foi concluído é que as pessoas começaram a perceber realmente o quão esta obra pode ser linda. É um tipo de trabalho que pode até parecer bruto, feito com martelos elétricos, mas depois dá um resultado de uma expressividade única”, notou a responsável.

Além da cidade da Praia, Vhils esculpiu numa parede em São Vicente a imagem da falecida cantora cabo-verdiana Cesária Évora.

Alexandre Farto (Vhils) nasceu em Lisboa, em 1987, terminou os seus estudos de Arte em 2008, em Londres, tendo iniciado a atividade como artista urbano em 1998, com a pintura de muros e comboios, na margem sul do rio Tejo.

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