O investigador Manuel Veiga concluiu, no seu novo livro, “Formação do Crioulo – Matrizes Originárias”, que o crioulo cabo-verdiano tem uma dupla origem, ou seja, é latina mas também é africana.

O livro, que será lançado no próximo dia 13, quinta-feira, por ocasião das comemorações do dia internacional da língua materna, 21 de Fevereiro, segundo o autor, é fruto de um trabalho de investigação intermitente de cerca de 40 anos porque, por não ter conhecimento das outras línguas da costa ocidental africana, era necessário recorrer a estudos de pessoas que conhecem o crioulo e as línguas africanas.

No final dessas pesquisas, disse que se constatou que o crioulo resultou da língua da costa ocidental africana e do português.

“O crioulo resultou da língua portuguesa, por isso é que tem origem latina, porque o português vem do latim”, disse Manuel Veiga, que explicou à Inforpress que “o nosso crioulo, também no léxico podemos dizer que vem do latim porque vem do português, mas tem origem africana na sua estrutura”, avançou.

A ideia de procurar saber sobre a origem da língua cabo-verdiana, revelou Manuel Veiga, surgiu depois do primeiro “Colóquio Linguístico” sobre o crioulo, que teve lugar em 1979 no Mindelo, na Ilha de São Vicente.

Outra razão, justificou, é que não concordava com o escritor Baltasar Lopes que escreveu em “O Dialecto Crioulo de Cabo Verde” que quase tudo no crioulo vem do português.

“Se as línguas africanas estiveram aqui em Cabo Verde, o português também e o crioulo resultou disso, como é que o crioulo poderá resultar apenas do português? Se 90 e tal por cento (%) do crioulo é português porquê é que os portugueses não compreendem 90 e tal por cento quando nós falamos crioulo? Então eu tinha essa dúvida”, justificou.

Para obter essas respostas, Manuel Veiga teve de recorrer à investigação da linguista francesa Rosine Santos, conhecedora de várias línguas africanas Oeste-atlânticas, do linguista alemão, Jürgen Lang, especialista do Wolof, do linguista francês, Nicolas Quint, conhecedor de várias línguas africanas, particularmente o mandinga, do linguista francês Jean-Louis Rougé, profundo conhecedor de várias línguas africanas.

Contou com o apoio dos estudos da linguista cabo-verdiana-americana, Marlyse Baptista, conhecedora do crioulo cabo-verdiano e do funcionamento de algumas línguas africanas, do estudioso Napoleão Fernandes, conhecedor do crioulo e do português antigo, da linguista finlandesa Ângela Bartens, conhecedora do funcionamento de algumas línguas africanas.

Tomando o romance “Odju d’Agu” como ‘corpus’ de análise, este trabalho de três capítulos teve como objectivo analisar a influência da matriz portuguesa, o contributo da matriz africana e a recriação local, a partir das duas matrizes.

“O objectivo fundamental é para explicar que a nossa língua tem uma dupla origem e que se no léxico o peso é de Portugal, na gramática o peso é das línguas africanas”, frisou.

Fica também provado, conforme observou o linguista alemão Jürgen Lang, que os cabo-verdianos, com base nos materiais linguísticos das duas matrizes, souberam “insuflar uma alma nova” ao crioulo, isto é, “criaram uma língua original, contribuíram para o enriquecimento do património linguístico da Humanidade”.

O primeiro capítulo discute e comprova as duas matrizes e a autonomia local verificada, enquanto no segundo capítulo há o alinhamento de tudo quanto seja substrato africano, o alinhamento de casos cuja realização ainda é desconhecida, no actual estádio de investigação, o alinhamento ainda de casos que protagonizam uma restruturação local engenhosa.

O terceiro capítulo traz uma rúbrica “Modi ta Fladu na Nha Rubera” que é uma espécie de ilustração da engenhosa restruturação local, quer dizer o crioulo tem base latino-africana, mas os cabo-verdianos deram-lhe uma “alma nova”.

O livro “Formação do crioulo – Matrizes Originárias” tem a chancela da Acácia editora.

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