Trabalhamos com todas as forças presentes na República Centro-Africana, no espírito da cooperação entre a RCA e outros países membros da comunidade internacional”, afirmou Mankeur Ndiaye.

O representante do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) salientou: “A Rússia contribui para a formação dos soldados da RCA, a Rússia é membro permanente do Conselho de Segurança [CS], eu mesmo visitei Moscovo em abril último, a convite das autoridades russas, para vermos como podemos trabalhar com conjunto na perspetiva da implementação do acordo de paz”.

“O importante é que todos os atores presentes assumam uma conduta de transparência e que todas as ações levadas a cabo pelos parceiros da RCA se inscrevam no quadro do acordo de paz”, assinado pelo Governo de Bangui e 14 grupos armados em 06 de fevereiro, reforçou o diplomata senegalês.

Mankeur Ndiaye deixou claro que a presença de forças russas não coloca desafios à MINUSCA, a missão de paz da ONU na RCA, e contornou a indicação reiterada nos últimos meses na comunicação internacional segundo a qual o governo da RCA contratou os serviços do grupo Wagner.

A empresa militar privada russa é acusada de desenvolver atividades mercenárias e de ser alegadamente financiada por Evgeni Prigojin, um familiar de Vladimir Putin, com alegadas atividades em vários locais de conflito em África, como a Líbia, Sudão e mesmo Madagáscar ou em Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

“Não temos relações com mercenários, trabalhamos com os Governos, da RCA e russo. A Rússia decidiu enviar especialistas para cooperar com a MINUSCA. São bem vindos e trabalhamos em cima de uma base muito clara de transparência. O objetivo é que todos contribuam para a consolidação da paz no país”, afirmou.

A Rússia tem vindo a colaborar de forma particularmente visível com o Governo do Presidente Faustin-Archange Touaderá, recebido com bastante visibilidade na cimeira Rússia-África em Sochi, em outubro passado, em particular no domínio da cooperação militar e da venda de armamento.

Neste contexto, Moscovo tem defendido o levantamento do embargo de armas imposto pela ONU à RCA, uma eventual decisão sobre cujas virtudes o representante do secretário-geral das Nações Unidas se escusou a elaborar.

O eventual levantamento do embargo de armas imposto pela ONU à RCA é “da responsabilidade do Conselho de Segurança” das Nações Unidas, disse à Lusa.

“Não nos pronunciamos sobre o tema, o que fazemos é trabalhar com o Governo para reforçar a capacidade operacional do Governo na gestão das armas e das munições, e no ‘stock'”, notou.

“A decisão de levantar ou não o embargo é do CS, agora posso dizer que o embargo não é popular. O Governo da RCA deseja que seja levantado, mas cabe ao CS avaliar, assim como ao comité de sanções da ONU”, acrescentou Mankeur Ndiaye.

A RCA é também alvo do embarco da exploração de diamantes e o representante defendeu a necessidade de se ultrapassar esta fonte de financiamento do país: “A RCA foi membro do processo de Kimberley. Creio que foi suspensa. É preciso trabalhar nesse domínio, para que a RCA possa explorar os seus recursos naturais, que muito podem trazer-lhe em termos de orçamento”.

“Porque o que temos é a exploração ilegal, por vezes, controlada pelos grupos armados. É preciso que isto acabe e que a RCA regresse ao Processo Kimberley, para que possa beneficiar do que a natureza lhe ofereceu em termos de diamantes e de ouro. Nós poderemos ajudar nesse domínio”, frisou.

Esta é, precisamente, outra das vias de aproximação de Moscovo a Bangui.

A sociedade russa de prospeção de diamantes Lobaye Invest obteve no ano passado o direito de explorar várias minas na RCA e em novembro o vice-ministro russo das Finanças, Alexei Moisseiev, defendeu a importância do “regresso à legalidade” dos diamantes centro-africanos.

A Rússia preside este ano à iniciativa internacional de luta contra os “diamantes de guerra”, denominada Processo Kimberley, um processo de certificação internacional encarregado de eliminar do mercado internacional os diamantes ditos “sujos” e cuja venda alimenta os esforços de guerra de muitos grupos armados, sobretudo em África.

Na sequência da rebelião Séléka, uma coligação de grupos armados muçulmanos que depôs o regime de François Bozizé em 2013, a RCA — que conta com importantes jazidas diamantíferas – foi suspensa do Processo Kimberley, tendo sido parcialmente autorizada a retomar as suas exportações de diamantes em 2016.

Em 2018, exportou oficialmente 13.571 quilates, contra 365.000 em 2012.

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