O Tribunal de Díli ordenou hoje a prisão preventiva de um ex-padre norte-americano acusado de abusos sexuais de crianças no orfanato que geria no enclave timorense de Oecusse-Ambeno, segundo fonte judicial.

A mesma fonte confirmou apenas a aplicação da prisão preventiva, tendo fonte policial confirmado que Richard Daschbach já está detido na cadeia de Becora em Díli.

A medida de coação foi aplicada depois de o ex-sacerdote Richard Daschbach, de 82 anos, ter viajado sob forte escolta policial desde o enclave para a capital timorense, não sendo ainda conhecidos os crimes de que é acusado.

A decisão ocorre depois da visita a Timor-Leste de um procurador da congregação Societas Verbi Divini (SVD ou Sociedade da Palavra Divina), organização que expulsou Daschbach quando os crimes foram conhecidos.

Em entrevista ao jornal Tempo Timor, o procurador, padre Peter Dikos, lamentou a demora da justiça timorense em atuar no caso, confirmando que as informações apontam a que tenham sido cometidos “abusos sistemáticos de meninas de forma diária”.

“Isso ocorreu durante anos e anos”, disse Dikos, notando que “não há um caso desta dimensão” na história da organização.

Dikos nota que apesar de o Vaticano ter lidado com o caso, expulsando o ex-padre, foi “um desafio desde o início lidar com a polícia”, tendo a SVD levado Daschbach à polícia pelo menos duas vezes, pedindo um documento que confirmasse a entrega do suspeito às autoridades.

Antes da prisão preventiva decretada hoje, Dikos lamentou que Daschbach não tivesse sido detido, admitindo que esperava que “o sistema judicial fosse mais pró-ativo” relativamente a um caso que deveria ter terminado há muito tempo.

“Para mim é uma surpresa que um caso sobre um crime tão grave continue a demorar”, afirmou.

“Ouvi pessoas em Timor-Leste dizer: `somos cristãos, somos católicos, devemos perdoar`. Isso é bonito, mas não podemos negar a justiça”, disse.

Daschbach foi detido em abril para um primeiro interrogatório, meses depois da denúncia do caso, tendo-lhe sido ordenado que abandonasse o enclave e regressasse a sua casa em Maliana.

Acabou por voltar pelo menos duas vezes a Oecusse, tendo fontes da Autoridade Regional confirmado à Lusa que voltou agora a ser detido depois de tentar regressar ao local onde é acusado de ter cometido os crimes, ao longo de vários anos.

Vítimas referiram já terem sido alvo de ameaças por denunciarem os abusos de Richard Daschbach, alegadamente cometidos durante vários anos a dezenas de crianças.

Daschbach, 82 anos, natural de Pittsburg, nos Estados Unidos, vive em Timor-Leste desde 1966 e, em 1992, estabeleceu duas casas de abrigo de crianças, a TopuHonis, em dois espaços no enclave de Oecusse.

O ex-padre acabou afastado de funções religiosas pela Congregação da Doutrina da Fé (CDF) no Vaticano depois de ter admitido os seus crimes à congregação Societas Verbi Divini (SVD ou Sociedade da Palavra Divina), tendo sido inicialmente retirado do enclave.

Apesar de Daschbach ter admitido perante várias pessoas a autoria dos crimes, continuou a viver vários meses na pequena localidade do enclave de Oecusse, onde é acusado de ter cometido os abusos, aspeto que tinha suscitado várias críticas em Timor-Leste.

Uma organização timorense divulgou um depoimento de uma jovem que diz ter sido uma de várias crianças vítimas de abuso sexual por parte do ex-padre norte-americano.

O depoimento, divulgado pela organização Fokupers — que, entre outras atividades, apoia vítimas de abuso sexual – confirma a existência de várias vítimas de Richard Daschbach.

“Eu não sabia nada. E não perguntei nada. Fui com as outras. Naquela vez estávamos três meninas no quarto. E foi quando as coisas más aconteceram. E fiquei surpreendida que as meninas ficavam caladas. O pai nem precisava de nos ameaçar. Ficávamos caladas. Ninguém falava de nada”, contou a jovem no depoimento divulgado.

A jovem explica que o então padre – a quem chama `pai` – nunca dizia por palavras o que queria, mas sim por gestos, incluindo masturbação, sexo oral e toques, agarrando as meninas para mostrar o que queria que fizessem.

O depoimento confirma que os casos de abusos eram conhecidos na comunidade onde, apesar disso, o padre “era muito respeitado”.

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