Os parceiros do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) defenderam esta quarta-feira como “transparente” o financiamento de 1,3 mil milhões de dólares (1,1 mil milhões de euros) para o projeto de gás natural liquefeito no norte de Moçambique.

Pela primeira vez, uma empresa pública moçambicana — a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) — recorreu na segunda-feira aos mercados financeiros internacionais após a reestruturação da dívida soberana do país, acordada com investidores, em outubro, e depois de a agência de notação financeira Fitch ter retirado o país da lista de soberanos em default.

Além das dívidas ocultas, de mais de 2 mil milhões de dólares (1,8 mil milhões de euros), desde 2014, no âmbito do qual o ex-ministro das Finanças Manuel Chang está detido na África do Sul, a pedido da Justiça norte-americana, a estatal Eletricidade de Moçambique (EDM) deve 221 milhões de randes (13,4 milhões de euros) à congénere sul-africana Eskom, anunciou o ministro das Empresas Públicas, Pravin Gordhan.

No entanto, questionado sobre o que leva o BAD a pretender emprestar 30% de 1,3 mil milhões de dólares ao Estado moçambicano, tendo em conta a situação de incumprimento, o presidente da instituição, Akinwumi Adesina, reiterou que se trata de uma oportunidade de investimento “fantástica”.

“Os projetos são bem estruturados. Sou pai de filhos e na vida aprendemos com os erros. Um erro é um desastre quando nada se aprende e julgo que Moçambique aprendeu algumas das lições e tenho grande confiança em Moçambique”, afirmou à Lusa Akinwumi Adesina.

O presidente do BAD acrescentou que “a economia do país está a ter um bom desempenho”, acabaram “de realizar um processo eleitoral magnífico, e estão a avançar com os programas do FMI [Fundo Monetário Internacional]”.

“Queremos que estejam numa situação que lhes permita ganhar dinheiro, gerir bem os seus fundos, pagar parte da sua dívida e ser uma economia resiliente, e a nossa abordagem não é punitiva”, declarou.

O banqueiro africano considerou que se trata “de uma transação transparente” e que o facto “de os investidores globais estarem a aplicar o seu investimento quer dizer que acreditam no negócio e em Moçambique”.

O presidente do BAD escusou-se, porém, a asseverar em que medida é que o Governo de Moçambique irá garantir a proteção dos investimentos privados aplicados no projeto de gás natural na bacia do Rovuma, no Norte de Moçambique.

“Na experiência do TDB [Eastern and Southern African Trade and Development Bank)], que teve o privilégio de conceder 100 milhões de dólares [90,7 milhões de euros] no projeto de gás natural liquefeito em Moçambique, o que nos deu a confiança foi o facto de ser um projeto orientado para a exportação em que grande parte do gás natural liquefeito irá para o Japão e outros países”, respondeu, por seu lado, Adamassu Tadesse, presidente da instituição bancária com sede nas Maurícias.

A sul-africana Zodwa Mbele, responsável por transações do grupo estatal DBSA (Development Bank of Southern Africa), sediado em Joanesburgo, escusou-se a comentar o litígio sobre as dívidas ocultas, mas notou que se trata de “um projeto transformativo que irá mudar o panorama da economia de Moçambique e é por isso necessário elevar o debate para além das transações [pagamento de empréstimos] e olhar para os benefícios para a economia do país”.

“Além disso, o mais importante é que se trata de um projeto governamental onde o Governo tem a sua “pele” para quem o sucesso do projeto é igualmente importante”, adiantou.

O diretor-geral do Africa50, instituição sediada em Casablanca, Marrocos, explicou que não estão a investir no projeto de Moçambique, mas comentou que instituições africanas “optam por riscos mais elevados”, porque “nem sempre querem esperar pelo quadro perfeito para tomar a decisão de investir”.

Alain Ebobissé salientou que “as melhoras apostas” são feitas quando há risco “e há que preparar a possibilidade de litígio”.

Já Sanjeev Gupta, da direção do África Finance Corporation (AFC), sediado em Dubai, acrescentou: “Acreditamos que existe risco, mas não é uma coincidência que o nível de ‘default’ em projetos de financiamento em África é um dos mais baixos e isto porque nós consideramos muito seriamente como mitigar os riscos”.

“Infelizmente, para nós, o continente africano não é um jogo para alocação de ativos, é o nosso jogo, é a nossa vida, para vocês [europeus] têm o privilégio de ser inconstantes”, frisou o investidor africano, perante a questão colocada pela Lusa ao presidente do BAD sobre a segurança dos investimentos privados em África.

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