De acordo com o escritor, há pouco tempo, tudo era “sua excelência, fulano” e “sua excelência professor”, o que resulta da falta de conhecimento por parte de algumas pessoas que não sabem como se dirigir a determinadas entidades.

Antes do multipartidarismo, o termo “camarada” resolvia o problema, disse Pepetela, tendo referido que a história do novo romance se desenrola, num tempo recente, num local indeterminado de uma qualquer nação africana e não é conhecido o nome do protagonista, apenas se sabe que foi Presidente de um país africano e que teve morte súbita, atingido por uma “maldita doença que apanhou a todos desprevenidos.”

À venda, há dois dias, o romance “Sua Excelência de Corpo Presente” foi lançado no auditório Pepetela, do Camões – Centro Cultural Português, cuja apresentação coube ao próprio autor da obra, uma das inovações em cerimónias de lançamento de livro.

A história começa no primeiro parágrafo, com a declaração do narrador: “Estou morto.” O romance descreve que, ao relembrar a sua vida, o percurso que o levou a Presidente e os muitos anos como Chefe de Estado, revelava os meandros do poder político, o nepotismo que o corrói e vários abusos permitidos a quem o detém.

Como percebe tudo o que se passa à sua volta e é muito difícil a um ditador deixar de o ser, “Sua Excelência” não só vai tecendo considerações sobre os presentes e os interesses políticos, como tenta adivinhar os pensamentos e maquinações.

A obra, que sai sob a chancela da Leya e da Texto Editores, está a venda ao preço de 4 mil kwanzas, sendo o vigésimo segundo livro de Pepetela e o décimo segundo no género romance.

Mesmo morto, Sua Excelência, não deixará a sua sucessão em mãos alheias e tenta imiscuir-se por meio do seu espião-de-um-olho-só, que lhe é tão fiel na morte como foi durante a vida. Trata-se de uma crítica ao abuso de poder e aos sistemas totalitários, disfarçados de democracia, escrita com um sentido de humor inteligente. O autor disse que, embora tenha sido inspirada nos sistemas políticos africanos, “qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.”

Pepetela nasceu em Benguela, em 1941. Licenciou-se em Sociologia, em Argel, durante o exílio. Publicou o primeiro romance, “Muana Pô”, em 1978, seguido de “May-ombe”, em 1980. Autor do clássico “Aventuras de Ngunga”,  há dois anos lançou, em Luanda, o romance “Se o Passado Não Tivesse Asas”.

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