Comecemos por desmistificar o palavrão streaming. Se no tempo do VHS tínhamos o conteúdo em casa, em cassete, pronto para colocar no vídeo, em 2018 a questão já não é posse, é partilha. Algures, num ponto do mundo, está alojada toda a informação de séries, filmes e documentários que compõem os catálogos deste tipo de serviços.

Do lado do utilizador, é preciso assinar uma subscrição e garantir que existe ligação à internet e um dispositivo para ver, seja ele uma televisão, smartphone ou computador. Quando o utilizador escolhe um conteúdo e carrega no play, está tudo feito. Este cenário é praticamente igual para conteúdos de vídeo ou de áudio, com pequenas diferenças à mistura.

Em Portugal, já existe um número composto de serviços de streaming de vídeo, é certo, mas ainda estamos longe de mercados como o norte-americano em que as opções se multiplicam.

No final de 2015, a mesma altura em que fez o seu processo de expansão global, a norte-americana Netflix chegava a Portugal. Com já vários anos de operação, a Netflix começou justamente pelo mundo das cassetes. Evoluiu para o mundo do streaming e, atualmente, lidera neste campeonato, muito devido à larga aposta nos conteúdos originais de séries, filmes e documentários.

A Netflix é que tem a maior notoriedade entre os serviços de streaming em Portugal, com 48,2%, segundo dados da Marktest, de 2017. Além disso, apurou a Deco Proteste, é também a que garante maior satisfação aos portugueses: numa escala de 0 a 10, tem um grau de satisfação de 7,9, batendo a concorrência.

Sim, porque por cá a Netflix não está sozinha nesta luta do entretenimento: tem a concorrência da Fox Play, Amazon Prime Video e também da NPlay, o serviço de streaming da NOS. Segundo os mesmos dados da Marktest, o serviço de streaming da Amazon, que chegou a Portugal em 2017, é o menos notável com apenas 18,6% de notoriedade. A meio caminho estão a Fox Play (com 35,9%) e o NPlay (com 33,9%). Mas estes dados pertencem a 2017: neste ano, já há mais alguns serviços a “nadar” neste lago do streaming de vídeo.

Os novos concorrentes

De um lado séries, do outro desporto – e ainda há um concorrente que é uma ameaça dupla. A MEO apostou num serviço dedicado apenas às séries, com o MEO Séries, que vai apresentar séries do canal AXN. Em época de lançamento, quem for cliente do operador pode experimentar o serviço gratuitamente, até ao final do ano. Depois disso, o serviço terá uma mensalidade de cinco euros.

Já no desporto, há o serviço de streaming da Eleven Sports, dedicado principalmente ao futebol, com uma mensalidade de 9,99 euros. Não são revelados “resultados comerciais obtidos em Portugal, alinhado com estratégia internacional do grupo”, explica Jorge Pavão de Sousa, managing director da Eleven Sports Portugal, mas indicando também que têm “uma base de clientes significativa, de várias dezenas de milhares”. O responsável acredita também que há espaço para subscrição de mais do que um serviço: “A alteração dos padrões de consumo a este nível pressupõe que os portugueses possuam mais do que uma subscrição.

Esta será uma forma alternativa de acesso a conteúdos complementares aos de televisão.”
A partir deste mês, também já há streaming do YouTube em Portugal, com o YouTube Premium, que dá acesso a conteúdos exclusivos criados para a plataforma detida pela Google. E por que razão é uma ameaça dupla? Porque esta opção chega a Portugal com uma mensalidade de 8,49 euros, que dá não só acesso a música sem anúncios mas também a downloads de vídeos e acesso a conteúdos exclusivos YouTube Originals.

O regresso da pirataria?

Muito do que faz a fidelização de um serviço de streaming passa pelo conteúdo – o que explica o crescimento deste tipo de opções no mercado, que resulta principalmente junto de uma faixa mais jovem da população. E, se é o conteúdo que move este mercado, muitas das apostas passam por séries e filmes exclusivos. Quase todos o fazem, de uma forma ou de outra: a Netflix tem o seu leque de originais, fortemente impulsionado por séries como Stranger Things ou House of Cards; a Hulu tira partido de outros e a Amazon Prime Video também puxa pela sua cartada, tendo na manga trunfos como Grand Tour, Transparent, Mozart in the Jungle.

A Hulu pode não estar disponível em Portugal, mas está também em crescimento internacional – só nos Estados Unidos já conta com 20 milhões de subscritores – muito graças a séries originais como The Path ou a premiada distopia dramática Handmaid’s Tale, que para Portugal é uma série exclusiva do serviço de streaming NPlay. Se isto parece uma ideia estranha, a resposta está nos direitos de transmissão, que são negociados para os diferentes mercados.

Se há uns tempos se falava que os serviços de streaming tinham contribuído para o decréscimo dos números da pirataria – para quê piratear se está incluído na subscrição e à distância de um botão? -, agora já não é bem esse o cenário. Pelo menos é para esse caminho que aponta um estudo da norte-americana Sandvine, no estudo The Global Internet Phenomena Report: a partilha de ficheiros através de BitTorrent aumentou, situando-se nos 32% do fluxo de tráfego de dados.

É certo que o BitTorrent não serve apenas para partilha de pirataria, mas está fortemente associado a essa prática – daí a ligação feita. Esta percentagem de aumento não é conclusiva por si só, mas o vice-presidente de marketing da Sandvine faz a relação entre este aumento (a fatia do BitTorrent para o fluxo de tráfego de dados estava em queda há já vários anos) e o também aumento do número de conteúdos exclusivos dos serviços de streaming.

Há ainda outros fatores a ter em conta, pelo menos neste universo que tenta ligar algo tão esquivo como a pirataria: a óbvia questão da facilidade e também o facto de haver casos em que, mesmo que o utilizador queira subscrever determinado serviço, determinada opção possa não existir no mercado nacional ou ter um catálogo demasiado reduzido.

Marcas atentas ao fenómeno

DN Insider tentou perceber junto de nomes como a Marktest ou a Gfk qual o potencial de valor do mercado de streaming de vídeo em Portugal – mas sem sucesso. E não são só os consumidores que veem potencial no streaming de vídeo, também há quem esteja atento às possibilidades de negócio, com empresas atentas a este tipo de movimentações. Manuel Falcão, da agência de meios Nova Expressão, realça que “o streaming está a aumentar, mas que não há ainda números rigorosos”, tendo também a opinião de que “o mercado português está a acompanhar de forma razoavelmente rápida o streaming”.

Alberto Rui Pereira, da IPG Mediabrands, afina pelo mesmo diapasão na questão dos números. Reconhece que o streaming “é uma área relevante no mercado” e aponta também que “as marcas estão atentas e tentam acompanhar”, com os “clientes cautelosamente à espera de números concretos” para determinar se vão a jogo ou não.

Para o CEO da IPG Mediabrands há ainda outro ponto a ter em conta, se se quiser perceber realmente qual a relação do mercado luso com o streaming, a medição dos sistemas de audiência. “O sistema também tem de evoluir”, para se ter números mais concretos – tal como se fez a transição para entender melhor os hábitos sobre ver televisão em diferido ou o acesso a gravações. Alberto Rui Pereira acredita também que vai haver mais mudanças no mercado, nomeadamente no investimento feito na televisão dita “tradicional”.

“O investimento vai ser direcionado, vai haver tendencialmente um desvio”, referindo que a ideia será acompanhar o comportamento do consumidor. E, para isso, já há alguns números disponíveis: dados da Marktest mostram que, no mercado português, em julho, 39% já via televisão em streaming; já no estudo Global Web Index, 43% refere que já faz maratonas para ver as suas séries e programas favoritos. Até já há uma designação popular para isso: binge watching.

Mais concorrência em 2019

O mercado de streaming de vídeo está em constante movimento – e isto não se limita apenas às funcionalidades e estreias de cada serviço. A grande questão é que, se o fenómeno mostra resultados e consegue conquistar utilizadores, claro que há mais empresas a querer ficar com uma fatia do bolo.

Já anunciado para 2019 está o serviço de streaming da Disney, que há meses faz correr tinta no mercado internacional. Já tem nome, Disney+, e, tendo em conta a máquina bem oleada que é a marca Walt Disney, já está a deixar a concorrência com alguns cabelos brancos. Vale a pena recordar que, com as várias aquisições que tem vindo a fazer nos últimos anos, a Disney tem debaixo do braço marcas no valor de milhões de euros, como o universo de Star Wars ou o mundo dos super-heróis da Marvel (que até aqui alimentam muitas das séries originais da Netflix).

O lançamento do serviço da Disney está previsto para o final de 2019 e, por enquanto, não se sabe se será direcionado primeiro aos Estados Unidos ou se terá uma operação inicial mais alargada. O que se sabe é que já há apostas de conteúdos: uma série baseada em Star Wars, que será protagonizada por Diego Luna (curiosamente, um dos protagonistas da nova temporada de Narcos, da Netflix). Está também escalada uma série inspirada em Loki, o vilão da Marvel, que tem vindo a ser cada vez mais acarinhado pelo público.

Já a trabalhar, mas apenas disponível nos Estados Unidos, está o serviço de streaming da DC Comics, chamado DC Universe (está também a cargo da Warner Bros. Digital Networks). Sendo dedicado apenas ao universo da DC, a oferta é ligeiramente diferente: uma subscrição dá acesso a conteúdos originais, a um programa de notícias diário (ligado ao mundo dos super-heróis e cultura geek) e também vários filmes, séries e até bandas desenhadas e outros livros do catálogo DC.

Mas há mais opções no mundo do streaming lá fora. A HBO, responsável por Game of Thrones, o maior fenómeno televisivo dos últimos anos, também tem um serviço próprio, o HBO Now.

A acelerar, mas ainda sem presença em Portugal, está o serviço de Fórmula 1, o F1 TV Pro, que permite ver on demand as corridas e ainda ter acesso a resumos e a estatísticas complementares das provas do desporto-rei motorizado.

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