A cerimónia de distinção foi orientada pelo Presidente namibiano, Hage Geingob, durante o acto central das comemorações do 40º aniversário do Massacre de Cassinga, perpetuado pelo então exército racista sul-africano contra um campo de refugiados namibianos no interior de Angola.

João Lourenço transformou-se no 10º estadista a ser condecorado com a mais alta medalha de ordem da Namíbia, depois de Ketumile Masire (Botswana), Robert Mugabe (Zimbabwe), José Eduardo dos Santos (Angola), Julius Nyerere (Tanzânia, a título póstumo), Keneth Kaunda (Zâmbia), Agostinho Neto (título póstumo), Denis Sassou Ngessou (Congo-Brazzaville), Macky Sall (Senegal) e Goodluck Jonathan (Nigéria).

Em nome do povo angolano, do Executivo e do seu próprio, o Presidente da República exprimiu os “mais profundos agradecimentos” pela distinção, o que, para ele, tem “um enorme valor e significado transcendente”. João Lourenço afirmou que angolanos e namibianos, irmanados pela causa comum de liberdade, verteram o seu sangue no campo de batalha, onde perderam alguns dos seus melhores filhos, para tornar realidade o sonho que os mobilizou para a vitória.

O Presidente da República disse estar certo de que o futuro reserva aos dois países responsabilidades comuns para tornarem os seus territórios prósperos, desenvolvidos e estáveis. “A luta deve continuar para que unidos possamos também vencer outra grande batalha que é a do desenvolvimento”, apelou João Lourenço, acrescentando ter a certeza de que a vitória dessa batalha também será certa.

Passados 28 anos de independência da Namíbia, o Chefe de Estado angolano entende que os esforços e sacrifícios consentidos pelo povo namibiano foram compensadores, porque hoje o país está a trilhar o caminho do progresso e do desenvolvimento, demonstrando o quanto vale a pena lutar por causas justas.

O Massacre de Cassinga, que ceifou a vida de mais de 600 pessoas, maioritariamente mulheres e crianças indefesas e inocentes, apesar de ter sido gratuito e bárbaro, de acordo com o Presidente angolano, não foi suficiente para travar o ímpeto da luta que conduziu à vitória contra a ocupação colonial e o regime do apartheid.

Liquidação da dívida

Angola vai liquidar a sua dívida de 50 milhões de dólares namibianos ao Banco Central da Namíbia no próximo dia 25 de Junho, contraída no âmbito do Acordo de Conversão Monetária existente entre os dois países desde Setembro de 2014.

A informação foi avançada pelo Presidente da Namíbia, Hage Geingob, quando discursava ontem no Monumento dos Heróis em Windhoek, no acto central do 40º aniversário do Massacre de Cassinga, celebrado ontem, dia de feriado nacional.  O Presidente namibiano disse que o Banco Nacional de Angola (BNA) já liquidou parte da dívida com o banco central do seu país, estando apenas em falta aquele montante.

Hage Geingob agradeceu ao Presidente João Lourenço por este acontecimento ocorrido ao abrigo do Acordo de Conversão Monetária, que admitiu ter sido muito contestado, mesmo sendo firmado no interesse das aspirações económicas dos dois países.

O estadista namibiano disse esperar que Angola e Namíbia sejam capazes de reforçar os laços que unem os dois países, à medida que avançam para os caminhos do desenvolvimento.

Após o acto central do 40º aniversário do Massacre de Cassinga, João Lourenço, foi ver o busto do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, colocado na avenida Asspann Place com uma placa com o seu nome. A placa foi descerrada pelos Presidentes Hage Geingob e João Lourenço.

Diante de vários cidadãos angolanos residentes na Namíbia o PresidenteJoão Lourenço, agradeceu ao homólogo e ao povo namibiano pelo reconhecimento a António Agostinho Neto, que vestiu “a farda de soldado da liberdade” para que angolanos e namibianos lutassem pela vitória, que acabou por acontecer. Ao massacre de Cassinga o regime de apartheid chamou-lhe “Operação Reindeer”. “Reindeer” palavra que significa rena, mamífero frequente na América do Sul, conhecido por caribú. Foi a segunda grande operação militar da África do Sul, depois da “Savana”.

O ataque foi perpetrado pelo exército sul-africano contra um campo de refugiados namibianos no dia 4 de Maio de 1978. O comandante do massacre, o coronel Jan Breytenbach, do Batalhão 32 “Búfalo”, escreveu um livro, no qual diz que o massacre de Cassinga foi para si “um dia de glória e de vergonha” e não esconde a simpatia pelo nazismo de Hitler. Breytenbach deu ao  livro  o título “Eagle Strike” (Golpe da Águia).

De acordo com fontes militares, o olhar da águia é “altivo e penetrante” e ela “só depende de si para obter dados em três dimensões que lhe permitem preparar-se para caçar com  total eficiência”. Por analogia, o apartheid na RSA tinha a rede secreta “SIGINT”, instalada no Malawi, na Rodésia e nas Comores que “trouxe à tona a importância que Cassinga tinha para os namibianos”.

Cassinga era uma zona por onde passavam os refugiados, como aqueles que escapavam do regime racista do apartheid vigente no Sudoeste Africano (actual Namíbia). O massacre passou por dois ataques distintos: o Campo de Refugiados de Cassinga e a delegação da SWAPO em Chetequera, a 250 quilómetros e 15 quilómetros da fronteira Sul, respectivamente.

A operação sul-africana consistiu, em primeiro lugar, num ataque pelo 2º Batalhão de Infantaria sul-africano às delegações da SWAPO em Chetequera e Dombondola, perto da fronteira entre a Namíbia e Angola.

Em segundo lugar, um ataque pelo 32º Batalhão à sede da SWAPO em Omepepa-Namuidi-Henhombe, a 20 quilómetros a Leste da localidade de Chetequera.

Finalmente, o grande massacre foi realizado por para-quedistas das SADF a Cassinga, um campo de refugiados e sede regional da SWAPO, situado a 260 quilómetros no interior de Angola. Os ataques duraram seis dias e só  terminaram a 10 de Maio de 1978.

  Mais de 400 corpos de namibianos numa vala comum

A ideia de que Cassinga era um campo militar quase passou, não fosse o trabalho desenvolvido por uma equipa das Nações Unidas que se deslocou ao local do massacre, a pedido do Governo angolano e da SWAPO.

Foi a ONU que levou as primeiras imagens da enorme vala comum onde “jaziam os corpos de mais de 400 homens, mulheres e crianças”, descreve um militar angolano que se dedica às questões da Defesa.

A jornalista Jane Bergerol, do jornal “The Guardian”, foi das primeiras pessoas que estiveram no local e fotografou a vala. Jane acompanhou toda a fase da guerra de desestabilização da  África do Sul contra os Estados da Linha da Frente e a luta anti-apartheid dirigida pelo ANC.

Quando viu a realidade em Cassinga, horrorizada, disse: “A primeira coisa que vi foram vestidos e blusas coloridas, calças ‘jeans’ e camisolas e muito poucos uniformes. Havia sinais de que estas roupas vestiam as pessoas que estavam aí mortas. Inchados e manchados de sangue, estes corpos pertenciam a raparigas e rapazes jovens, alguns homens adultos e alguns adolescentes, todos aparentemente chegados da Namíbia”.

Na fotografia ilustrada no trabalho de Jane Bergerol, que foi publicada no “The Guardian” de Londres de 10 de Maio de 1978, a legenda é a seguinte: “Vala comum contendo mais de 400 corpos de namibianos massacrados pelas tropas sul-africanas. Fotografia tirada quatro dias depois do ataque”.

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