O histórico café produzido junto ao vulcão da ilha do Fogo já foi um produto emblemático de Cabo Verde, com mais de 500 toneladas em 1900, mas está ameaçado pela seca, deixando de ser um negócio rentável.

“Está um pouco difícil de investir mais no café porque a chuva não nos ajuda”, começa por contar à Lusa Manuel Barros, que herdou a produção de café no Monte Verde, município de Mosteiros, na encosta do vulcão do Fogo.

No seu terreno, a quase mil metros de altitude, dependendo do ano e sobretudo da chuva, pode produzir entre três e cinco toneladas de café, da variedade arábica, como em toda a ilha.

O negócio foi começado pelo pai, que entretanto morreu. Emigrado nos Estados Unidos e preocupado com o terceiro ano consecutivo de seca que afeta Cabo Verde, Manuel Barros já tem pouca esperança no negócio do café.

“O meu pai é que controlava tudo, mas ele foi e eu é que tomei conta (…) Já tentei muitas vezes aumentar as plantações, mas infelizmente não estou com muita ideia de aumentar porque dá muito trabalho e não está a avançar para nada. Temos muita falta de água”, desabafa.

A introdução do café na ilha do Fogo terá ocorrido no século XVIII, aquando da instalação do morgadio de Monte Queimado no concelho dos Mosteiros, pelo seu primeiro proprietário, Pedro Fidalgo de Andrade.

O regime atual de produção conta cerca de 200 anos e varia entre altitudes que vão dos 350 metros aos 1.300 metros, aproveitando os solos vulcânicos, o microclima do Fogo e sendo produzido apenas com matéria orgânica rica, praticamente sem recurso a máquinas.

A apanha do bago de café nos Mosteiros acontece por norma no mês de Março e a generalidade dos produtores entrega diretamente a uma empresa local, que faz a transformação, comercialização e, quando as quantidades o permitem, a exportação.

“Temos muitas dificuldades, principalmente para escoar. É uma zona muito alta, não se chega lá de carro, é preciso ir de burro. Gastamos muito para trazer o café para as zonas baixas”, explica Manuel Barros, que não vê futuro para o negócio.

“Vai ser difícil”, desabafa.

Um cenário que Rosério Rodrigues, 74 anos e que vai já na quarta geração de produtores de café no Fogo, prontamente corrobora.

Até porque admite que os filhos e os netos já não estão disponíveis para um negócio que deixou de ser rentável.

“Não há continuadores. No futuro são capazes de vender tudo”, observa, admitindo que compreende essa decisão, face à realidade do Fogo.

Atualmente, nos vários terrenos nos Mosteiros que tem a cargo – entre os seus e os da restante família -, produz à volta de meia tonelada de café, quando num bom ano de chuva chegava às quatro toneladas.

“Dada a falta de chuva a produção é cada vez menos”, diz.

O negócio do café na família remonta à sua bisavó, que garante ter sido uma “grande produtora” na ilha do Fogo, há quase 200 anos. Hoje, na ilha, o negócio é pouco mais que familiar, com uma produção que, nos melhores anos recentes, segundo dados do município dos Mosteiros, ronda as 100 toneladas, um quinto do registado no ano de 1900.

“Se continuar como está, o café tem os seus dias contados”, assume Rosério Rodrigues.

De acordo com o historiador e professor cabo-verdiano Fausto do Rosário, o café chegou a Cabo Verde, inicialmente à ilha de São Nicolau e depois a Santo Antão, Santiago e ao Fogo, através da diáspora judia que deixou Portugal. Contudo, as plantações de cafeeiros na ilha do Fogo tiveram a particularidade de ser as únicas que escaparam às ordens do Marquês do Pombal, para que fossem arrancadas, para não prejudicar o comércio das outras colónias de então.

“No Fogo não foram arrancadas e o café passou a ser uma cultura de rendimento”, recorda Fausto do Rosário, considerado como figura de referência na história e cultura daquela ilha.

A produção de café alargou-se sobretudo ao norte e nordeste da ilha, tirando partido da humidade e do clima da encosta do vulcão, ganhando, com o tempo “características próprias de aroma e sabor”.

“Só que efetivamente está muito velho. A maior parte das plantas têm quase ou mais de cem anos. É necessário renovar o cafezal de modo a manter esta relação de qualidade e de quantidade”, alerta, admitindo que o bago vermelho ainda “afeta e determina fortemente” o rendimento de muitas famílias, essencialmente no período da apanha.

Contudo, adverte, a seca – que em 2020 vai obrigar o Governo a mobilizar nove milhões de euros em apoios a vários sectores – só vai agravar este cenário, deixando pouco a pouco definhar a cultura do café no Fogo, que “podia ser” uma das “grandes marcas” da ilha.

“Neste momento a produção é muito pouca e vai ficando cada vez mais pouca devido à falta de chuva”, confessa.

O cenário preocupa Rosério Rodrigues. Assume-se como “um continuador” do negócio do café do Fogo: “Quando nasci, desde criança vejo o café no quintal para secar”.

É por isso que, explica, o café sempre foi, além de “um orgulho da família”, também uma fonte “muito rentável” e uma “grande riqueza” da ilha do Fogo. Contudo, já teve de diversificar a sua atividade, para não depender do negócio do café, que ainda vende, com rótulo próprio, aos turistas que pernoitam na pensão que construiu no centro dos Mosteiros.

E claro, além do simbolismo, também não dispensa “um café do Fogo por dia”, como o faz há mais de 60 anos.

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