Existe uma profissão em África que, em pleno século XXI, seria impensável no mundo ocidental. Em certas zonas de Moçambique, onde a energia ainda não chegou por falta de condições económicas, há quem caminhe até ao ponto mais acessível que tem energia para carregar os telemóveis dos habitantes de uma comunidade remota, transportando-os num saco que leva às costas e chegando a caminhar cerca de dez horas. “E às vezes isto é feito de um dia para o outro”, contou Fernando Silva, responsável da divisão de Energy Management da Siemens Portugal.

Há uma correlação direta entre desenvolvimento económico e a evolução de infraestruturas energéticas, sejam estas de produção, distribuição, consumo ou armazenamento de energia. Em qualquer país da Europa ou do mundo ocidental, a eletricidade assumiu contornos de um bem público; nas zonas remotas de África permanece um bem de luxo.

É a inovação que traz a energia para estas zonas. A Siemens aliou-se à Solarkiosk, uma empresa especializada em promover o desenvolvimento económico para as comunidades mais empobrecidas do mundo, alicerçada numa tese sustentada pelo académico C.K. Prahalad que, na viragem para o novo milénio, cunhou o termo ‘bottom of the pyramid’ (a base da pirâmide) para se referir aos cerda de 75% da população mundial que vive abaixo do limiar de pobreza e que podem constituir uma forte fonte de receitas para as empresas que, com ideias inovadoras, consigam penetrar neste mercado e satisfazer necessidades prementes a preços muito reduzidos.

A ideia da Solarkiosk, em parceria com a Siemens, foi simples, mas revolucionária, dando eletricidade a quem (ainda) não a consegue pagar, conseguindo satisfazer as necessidades mais prementes, explicou Fernando Silva. “Em vez de construirmos linhas e subestações para levarem energia a uma população de 30 ou 40 famílias (…), o que fazemos é colocar um quiosque, alimentado por painéis solares, e que vai disponibilizar um serviço”.

A parceria, que já tem mais de 300 projetos em África, consegue desta forma fornecer a energia limpa enquanto um serviço, cobrando um fee reduzido. Mas que serviço é esse? “O serviço é tão simples como carregar o telemóvel, ou refrigerar um alimento em vez de ter um frigorífico que está 90% do tempo vazio”, contou o responsável português.

A Siemens desenvolve a análise dos dados de utilização dos quiosques solares a partir de Portugal, com recurso a tecnologias de ponta como a inteligência artificial, para perceber “se os serviços estão a fazer prestados podem ser melhorados, ou se se podem prestar outros tipos de serviços”, explicou Fernando Silva. Mas “isto é só uma parte do caminho, porque a seguir é preciso eletrificar estas zonas”, revelou, uma decisão política, acima de tudo e geralmente co-financiada por instituições internacionais, como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional.

Até chegar o dia da eletrificação plena, alguns dos projetos, que são autossustentáveis, poderão ajudar as comunidades remotas a desenvolverem negócio, requerendo mais energia, num ciclo positivo de desenvolvimento energético e económico. Estes painéis solares constituem um novo modelo de negócio, “por um valor que eles [os membros das comunidades remotas] podem pagar e, com isto, abre um caminho de evolução económica e social dessas zonas”, explicou Fernando Silva. “Eles vão depois investir na agricultura e vão começar a ter rega, por exemplo”.

Quiosques solares: paradigma do futuro da energia

Apesar dos projetos estabelecidos em parceria entre a Siemens e a Solarkiosk serem pensados apenas para as comunidades remotas que não tem capacidade financeira para pagarem por energia, o conceito inovador dos quiosques solares encerra em si o rumo futuro da indústria energética e que se explica através dos ” famosos 3Ds”, como lhes chama Fernando Silva.

O primeiro “D” diz respeito à ideia de “descarbonização”. Nas palavras do responsável da Siemens Portugal, a descarbonização da energia prende-se com a redução dos combustíveis fósseis enquanto fonte de energia, como o petróleo, e o com um cada vez “maior investimento energia eólica (vento), solar e todas as fontes de energia renováveis”.

O segundo “D” vem de “descentralização” e marca ruptura com a forma tradicional como a energia é produzida, distribuída, consumida e armazenada. Segundo o especialista, “até agora, grande parte da energia, da eletricidade, neste caso, era produzida em grandes centrais que se vê no Ribatejo, por exemplo, e que produzem energia e a colocam no consumidor final, à distância”. Mas a descentralização vem alterar este paradigma. “Agora, cada um de nós, por via do seu edifício, onde podemos ter painéis solares ou uma caldeira que consegue armazenar energia sob a forma de água quente, começamos a ter oportunidade de não sermos apenas consumidores, mas também produtores [de energia], explicou Fernando Silva. “Esta descentralização leva a que o sistema seja mais complexo: em vez de termos 10 centrais e 40 subestações para gerir, por exemplo, passamos a ter centenas de milhares de pontos onde temos produção, armazenamento e consumo. E é aqui que entra o terceiro “D”, de “digitalização”, frisou.

A digitalização, isto é, a tecnologia, é que vai permitir às empresas como a Siemens gerirem “esta complexidade”, disse Fernando Silva. Mas o valor da tecnologia vai mais além, porque vai potenciar a criação de novos modelos de negócio. Por exemplo, a Siemens tem um projeto em Brooklyn que, através da tecnologia blockchain, os membros de um bairro agregaram-se para gerir a energia de cada um, para a utilizar nos momentos em que necessitava, e fazer a troca dessa energia e do respetivo valor entre elas, peer to peer“, explicou Fernando Silva.

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