Sociedades abertas com grupos fechados

A Opinião de Filipe Zau

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Filipe Zau, angolano, Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

De acordo com as teses do “Fórum Preliminar Stop a Destruição do Mundo”, realizado em Lisboa, de 27 a 30 de Maio de 1993, existem milionários (banqueiros, comerciantes, magnatas do petróleo, donos de multinacionais do ramo químico, alimentar, farmacêutico e de armamentos…), que, de forma secreta, actuam para implantar a “New World Order”; i.e., a existência de um único governo no mundo.

Dentre os autores que denunciam esse propósito constam, entre outros, Henry Coston, Yan Moncomble, Rainer Daenhardt, Fernando Abreu e José Fernandes Dias, que, segundo eles, “este complot de milionários constitui, de facto, o ‘governo invisível’ do mundo, estando na origem de praticamente todos os malefícios, guerras, guerrilhas, atentados, injustiças e crimes que flagelam a Humanidade inteira actual”. 

Referem-se também à existência de três organizações secretas interligadas, todas elas chefiadas por David Rockefeller: o CFR (Council on Foreign Relations) com 1.600 adeptos, todos norte-americanos; o Bilderberg Group (uma extensão do primeiro com a adesão de associados europeus); e a Trilateral Comission (ou Tríade), extensão das duas anteriores, constituída por milionários americanos, europeus e japoneses. 

O CFR – Conselho das Relações Exteriores tinha, até 1979, a sua sede em Nova Iorque. É uma organização de pressão política e financeira mundial, fundada, em 1921, por membros da família Rockefeller. Dos seus 1.600 filiados, todos eles norte-americanos, constam personalidades ligadas às altas finanças, universidades, política, comércio, fundações e mídias. Em 17 de Fevereiro de 1950, Paul Warburg, financista ligado ao CFR declarou perante senadores americanos, o seguinte: “Teremos um governo mundial, quer isso agrade ou não. A única questão é saber se ele será criado por conquista ou por consentimento”.

Segundo as publicações de Henry Coston, o Bilderberg Group foi criado, em Maio de 1954, por uma centena de banqueiros, académicos, políticos, funcionários internacionais, diplomatas e homens de negócio, que, a convite do príncipe Bernhardt dos Países Baixos, se reuniram no Hotel Bilderberg, em Osterbeek, na Holanda, passando os seus membros a ser conhecidos por Bilderbergers. Dentre os vários autores que escrevem sobre este misterioso grupo constam os seguintes: “Roger Mennevee, desde 1960, na sua revista “Os Documentos”, confirmando as suas revelações no número de Dezembro de 1967, sob o título “As eminências pardas da política mundial”, ao publicar os “Novos Documentos sobre M. Retinger e o Grupo Bilderberg”; Pierre Virion, que, na mesma época, publicou na editora católica de Pierre Lemaire, em Saint-Geneve (Mayenne), uma brochura explosiva intitulada “Afinal um governo mundial?”; Pierre de Villemarest, na sua “Carta Confidencial”; e Jacques Bordiot, nas “Aulas Francesas”. No que respeita a publicações americanas, constam informações precisas sobre os Bilderbergs”, no “Facho e a Luz”, editado pelo “Liberty Lobby”. 

No dia 25 de Abril de 1992, o diário português “Público”, dá a conhecer, na sua página 16, esta notícia: “Reunião Plenária da Comissão Trilateral começa hoje em Lisboa – Círculo de Elefantes – Henry Kissinger, Pinto Balsemão, David Rockefeller, Otto Lambsdorf, Robert McNamara, Sadako Ogata e Thomas Foley: gente influente em Lisboa”. E acrescenta o seguinte: “O clube privado mais poderoso e influente do mundo, o Poder supremo da Terra, o Governo-sombra da humanidade inicia hoje em Lisboa a sua reunião plenária anual, que durará três dias, com a presença de mais de 200 personalidades americanas, europeias e japonesas”. Logo de seguida, o mesmo jornal ameniza a sua própria informação bombástica: “apesar dos epítetos com que geralmente é referida, A Comissão Trilateral não é mais do que uma associação informal de personalidades que se reúnem periodicamente para discutirem assuntos de interesse comum”.

Joseph E. Stiglitz, professor de Economia e ex-vice-presidente do Banco Mundial, galardoado com o Prémio Nobel de Economia em 2001, para além de crítico dos países europeus anteriormente ligados à colonização, é também um crítico dos Estados Unidos, como o demonstrou, 2002, no seu livro, editado em Paris “La Grande Désillusion”, e na publicação de Abril, desse mesmo ano, no Le Monde Diplomatique, “A Mundialização em Acção”. Para ele, os EUA foram uma colónia que chegou à independência de armas em punho. Daí que, a sua postura inicial, em relação aos outros países colonizados, tivesse sido anteriormente mais moderada e humana. Todavia, depois de se terem tornado na potência dominante da economia mundial, acabaram por se colocar ao lado das ex-potências coloniais. Ainda segundo Stiglitz, durante a Guerra-Fria, os princípios da democracia foram injuriados e/ou ignorados e caso houvesse um “destino manifesto”, os EUA teriam seguido o caminho do expansionismo. 

Há aqui uma evidente situação dicotómica: por um lado, a necessidade de as sociedades, em todo o mundo, serem democráticas, por conseguinte, cada vez mais abertas, transparentes e protagonistas da sua própria história; por outro, a existência de grupos fechados dentro de sociedades democráticas, determinando (de forma imposta ou consentida, agradando ou não) o futuro de essas e de outras sociedades, que, em todo o mundo, se desejam democráticas (?!). 

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