“O contexto global de aversão ao multilateralismo, e até uma reversão desse modelo, fortalece a necessidade de o continente africano reforçar a integração regional par contrariar o impacto global dessas tendências”, disse Hanan Morsy, em entrevista à Lusa no âmbito dos Encontros Anuais do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), que decorrem até sexta-feira em Malabo, a capital da Guiné Equatorial.

“O que vimos neste e no último ano foi histórico em termos de esforço de integração regional em África”, disse a economista, lembrando que “o facto de o acordo de livre comércio em África ter sido lançado no último ano e já termos chegado às 22 ratificações, entrando em vigor enquanto tratado é um progresso enorme, um momento histórico em termos do empenho no caminho para mais integração”.

Na entrevista à Lusa, Hannah Morsy vincou que para a África austral – região que inclui Angola e Moçambique -, o crescimento previsto de 1,2% para este ano “é modesto devido aos efeitos do abrandamento económico na África do Sul”, que tem impacto nos outros países.

“Num cenário ambicioso, a África austral deve ter um aumento de 3% em termos de rendimento com a implementação do tratado, o que compara com cerca de 7% para a África central devido ao facto de muitos destes países serem isolados do mar”, explicou a economista-chefe do BAD.

“Nem todos beneficiam na mesma medida, mas todos os países africanos estarão bem melhor do que sem integração regional”, concluiu a responsável, que hoje lançou oficialmente o relatório com as Perspetivas Económicas Africanas.

A diretora do Departamento de Pesquisa e Previsões Macroeconómicas do BAD considerou que se os constrangimentos criados pelos governos africanos fossem resolvidos o continente deixaria de perder um milhão de empregos por ano.

Hanan Morsy disse ainda que não tem havido um foco suficientemente forte na criação de emprego e explicou que o continente perde 2,3 milhões de empregos anualmente devido a constrangimentos empresariais, que poderiam reduzir-se em um milhão.

“Tentámos quantificar as dificuldades e os empregos perdidos anualmente por causa das principais dificuldades enfrentadas pelas empresas e concluímos que há 2,3 milhões de postos de trabalho perdidos anualmente devido a constrangimentos empresariais, e identificámos que as maiores quatro dificuldades sentidas pelas empresas estão relacionadas com os governos, e são as licenças, mau funcionamento dos tribunais, instabilidade política e corrupção”, afirmou Hanan Morsy.

“Resolvendo apenas estes quatro principais problemas relacionados com os governos, o continente reduziria a perda de empregos em mais de um milhão por ano [para menos de 1,3 milhões]. Portanto, há um papel para os governos no que diz respeito à ajuda à eliminação dos constrangimentos principais que estão a impedir as empresas de crescerem e criarem empregos, ajudando à industrialização de África”, acrescentou a egípcia que o BAD contratou, no ano passado, ao Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, em Londres, aonde estava desde 2012.

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