“Esta nossa ideia de serem os indonésios a propor [o referendo] ultrapassou tudo o que nós podíamos pensar”, disse Fernando Neves à Lusa, por telefone, a partir de Bali, na Indonésia, onde se encontrava antes de prosseguir a viagem para a capital timorense.

O diplomata, que esteve envolvido durante todo o período de negociações, entre 1997 e 1999, detalhou como foram alcançadas as condições que permitiram que Timor-Leste se tornasse independente da Indonésia.

“À medida que muda o Governo na Indonésia, cai o Suharto, e vai havendo uma potencial abertura da sociedade indonésia para uma democracia, nós começamos a perceber que temos muito mais espaço negocial”, afirmou Fernando d’Oliveira Neves.

“Fomos convencendo as Nações Unidas de que o melhor era que convencessem os indonésios a serem eles a propor as propostas que tinham a fazer para encontrar uma solução. Assim, obviamente, não se punha a questão de salvar a face da Indonésia e a solução que eles tinham proposto”, começou por explicar, acrescentando: “acabou por pegar muito para além do que nós pensávamos”

Fernando d’Oliveira Neves, referiu que houve “um conjunto de fatores internacionais” e que os negociadores portugueses se depararam com “uma oportunidade sem precedentes”.

“O próprio Presidente [então Jusuf Habibie] (…) necessitando de um apoio internacional financeiro num momento de grande aperto – e com o lóbi que nós fizemos não só junto das grandes potências, mas também junto do FMI e do Banco Mundial -, achou que, face a essas condições, o melhor era largar Timor”, contou.

O relato de Fernando d’Oliveira Neves foi compilado por Bárbara Reis, jornalista do jornal Público, no livro “O Negociador”, lançado esta semana – em que se assinalam vinte anos do referendo – e que resulta de 44 horas de entrevista.

À Lusa, d’Oliveira Neves referiu que inicialmente “não havia um ambiente muito favorável para que se conseguisse dar à negociação um caminho positivo”, assinalando que a Indonésia se apresentava intransigente ao querer manter o domínio sobre Timor-Leste, mas que também era prejudicada pela ausência de atenção ao problema por parte da comunidade internacional.

“O nosso objetivo era procurar encontrar uma solução que permitisse melhorar a condição dos timorenses, sem nunca pôr em causa o respeito pelo direito à autodeterminação de Timor-Leste”, expôs.

Quando as negociações entre Indonésia, Portugal e Nações Unidas começaram, o embaixador apercebeu-se que havia três partes: uma a favor, uma contra, e uma que queria um resultado.

“Tivemos consciência, quando começam as negociações, que tínhamos ali três partes: a Indonésia, que não queria mudar nada, nós, que queríamos mudar tudo, e as Nações Unidas, que tinham tomado aquela iniciativa, e que por isso tinham interesse em apresentar resultados. Um resultado qualquer”, contou o diplomata.

Fernando d’Oliveira Neves considerou que a Indonésia ocupou Timor-Leste “como se fosse uma colónia, mas como se ocupavam as colónias no século XVII ou XIX, com uma violência brutal. Houve um verdadeiro genocídio”, ainda para mais “numa época em que os direitos humanos tinham assumido (…) uma relevância nas relações internacionais”.

O diplomata diz que ficou “ultra-satisfeito” com o resultado faz um balanço positivo das negociações e considera que, durante o processo, a diplomacia portuguesa “agiu sempre como devia e que marcou sempre posições”, a começar pelas reuniões anuais entre ministros que serviram para “manter Timor-Leste como um ponto da agenda das Nações Unidas e como uma questão internacional”.

O antigo embaixador e atual conselheiro da Gulbenkian, considera que o dia em que se alcançou um acordo entre as três partes foi “um dia inesquecível para a história diplomática de Portugal” e congratula-se sobre o que foi também “um dia muito importante para as Nações Unidas, porque é um dos grandes êxitos das Nações Unidas”.

Para o futuro de Timor-Leste, Fernando d’Oliveira Neves defende que as perspetivas “são favoráveis” e que embora o desemprego seja uma dificuldade para a população, considera que “no conjunto geral, tem estado a correr muito bem”.

Quanto à política, “Timor-Leste tem vindo a ser considerado como uma das maiores democracias de maior êxito, senão a democracia de maior êxito” no Sudeste Asiático, passando por várias mudanças de Governo pacíficas e em conformidade com as regras constitucionais e democráticas.

Para o embaixador, as condições financeiras, incluindo os ganhos com o petróleo, também são promissoras, por estarem a “ser usadas com prudência e com bom-senso”.

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