“Pelo menos numa primeira fase. Somos uma coligação de três partidos diferentes, vamos ver como gerimos isso. Tenho que aceitar isso”, afirmou o líder da Aliança de Mudança para o Progresso (AMP) em entrevista à Lusa.

“Se colocasse o interesse individual sobre o da nação poderia dizer não. Mas jogando entre o interesse individual e do partido e o do país, tenho que saber gerir em termos de tempo e de outros fatores, para tomar uma decisão mais cedo ou mais tarde”, afirmou o antigo Presidente timorense.

Xanana Gusmão recusou fazer cenários sobre eventuais acordos depois das eleições antecipadas, se ninguém tiver maioria absoluta, e declarou-se “aberto a tudo e a nada”, sublinhando que progressivamente quer abandonar a liderança do Governo.

“Queria progressivamente ir-me afastando da vida política. Disse isso agora ao Taur. O Taur disse: tem calma ainda”, contou à Lusa.

“Eu não digo que estou farto, mas é tempo de começar a encorajar mais as pessoas. Vou prestar mais atenção à descentralização. Depois da descentralização temos o ordenamento do território. Para começarmos a empurrar a economia é preciso muita assistência lá em baixo”, disse.

Xanana Gusmão lidera a AMP, uma coligação de três partidos da oposição, que são maioria no parlamento nacional: o seu Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT), o Partido Libertação Popular (PLP) de Taur Matan Ruak e o Kmanek Haburas Unidade Nacional Timor Oan (KHUNTO) de José Naimori.

Um dos debates tem sido se, no caso de vitória da AMP, Xanana assumiria o cargo de primeiro-ministro ou se o cederia a Taur Matan Ruak.

A própria coligação é inesperada e seria quase impensável há meio ano, com os partidos a apresentarem “programas muito diferentes” às eleições de julho de 2017, tendo-se unido “para aprenderem juntos” e ultrapassar as diferenças.

“O que uniu as três bancadas foi tentar ajudar-se uns aos outros a compreender, a ver. Isto é que uniu. O que nos podia unir é uma visão sobre o desenvolvimento de Timor, aquilo que podemos dar ao povo e isso uniu”, afirmou.

A plataforma política dos três nasceu de uma visão para o país e porque “cada um não se restringiu no individualismo de visões e opiniões, sacrificou e assumiu o coletivo”, postura que “fez recordar 2007”.

Da aproximação, disse, nasceu um detalhado e vasto programa, que no caso de vitória da AMP vai ser transformado num programa de Governo, com ações calendarizadas, e onde é preciso ainda introduzir “um bocado de realismo”.

Xanana Gusmão admitiu que é preciso trabalhar mais nos quadros do partido, onde há “grande potencial”, especialmente dos jovens que, “talvez pelo sistema”, têm mais instrução, mas centrada apenas no que aprenderam “e não sabem olhar para os lados, ou para a frente”.

Ao reconhecer a perceção de que “sem Xanana o CNRT pode acabar”, o líder timorense disse que tem no partido “um potencial enorme, muito boa vontade” e que “é preciso é educar essa vontade, reorientar esse potencial” para o futuro.

“Então é melhor ser enquanto estou vivo, enquanto posso pensar, os posso ajudar da melhor forma”, afirmou.

Após a derrota frente à Fretilin em 2017 ter deixado “dirigentes e militantes constrangidos”, Xanana Gusmão explicou que depois se começou a pensar no que podia ser feito “para trabalhar como oposição, internamente”.

Xanana Gusmão disse que foi com “grande surpresa” que percebeu, quando já estava fora do país a negociar as fronteiras com a Austrália, que a formação da coligação inicial de Governo tinha falhado.

Um falhanço que atribui aos líderes da Fretilin que, disse, mostraram “falta de respeito pelas pessoas, pela diferença de opiniões”, um fator que “em vez de unir, dividiu”, levando a que uma coligação que começou a ser de 43 lugares – Fretilin, PLP, PD e KHUNTO – tenha acabado por ser apenas da Fretilin e PD (minoritária, com 30 dos 64 lugares no parlamento).

A possibilidade do CNRT voltar atrás, para ajudar a Fretilin, seria uma mensagem contraditória, especialmente depois das críticas da campanha.

“Durante um mês inteiro de campanha ouvimos da parte da Fretilin: o CNRT não sabe governar. Porque não sabe governar é que chamou outros partidos, incluindo a Fretilin”, disse.

“Se não sabíamos governar, demos os parabéns à Fretilin, dissemos: ‘Por favor governem, governem bem para nós também aprendermos. Agora vamos aprender como oposição, mas depois vamos ver como vocês governam para aprendermos a governar”, disse.

Questionado sobre se não era contraditório o facto de haver uma nova AMP depois de ele próprio dizer que não haveria, Xanana Gusmão explicou que apesar de saber “que haveria aproximações de outros partidos” como em 2007, não iria atuar de imediato.

“Queria que a Fretilin tivesse toda a liberdade para contactar os partidos. Isso para ser homem de palavra, um partido com uma justeza de ideias”, disse.

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