Transmutação identitária de escravos no Brasil

A Opinião de Filipe Zau

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Filipe Zau, angolano, Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

Desde que houvesse ventos favoráveis, o tempo de viagem de um navio negreiro entre Luanda e Pernambuco era de 35 dias, aproximadamente. Se o destino fosse Salvador da Bahia, já correspondia a 40 dias. Se o porto de chegada fosse o Rio de Janeiro, seriam então de 50 dias. 

Se houvesse necessidade de aguardar por ventos equatoriais favoráveis para chegar ao destino, há relatos de travessias que demoraram entre três e cinco meses, provocando elevadas taxas de mortalidade entre os cativos, motivadas pela fome, pela sede e por doenças de todo o tipo. Como para os traficantes e comerciantes de escravos, os sobreviventes da traumática travessia atlântica representavam apenas uma “mercadoria” a ser comercializada através de leilões públicos nas principais praças da cidade ou em transações particulares, tornava-se indispensável pô-los para “engorda”, para, mais tarde, aparentarem melhores condições físicas.

Esta informação chega-nos de Kátia de Queirós Mattoso, no seu livro “Ser escravo no Brasil”, que é citado na dissertação de um Curso de Mestrado em História, realizada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 2004, por Alênio Carlos Noronha Alencar, sob o título “Nódoas da Escravidão: Senhores, Escravos e Libertandos em Fortaleza (1850-1884)”. Depois de negociados e entregues aos seus proprietários, os que se destinavam às zonas rurais, iam, entre outras funções, trabalhar nas plantações de cana, de café, de algodão, de fumo e na criação de animais. Os das áreas urbanas ocupavam-se principalmente de trabalhos domésticos nas casas dos seus proprietários ou nos armazéns localizados principalmente perto dos portos marítimos, para o trabalho de embarque e desembarque de produtos diversos. Todos estes sobreviventes acabavam posteriormente por ter uma vida curta.

No estudo realizado por Alênio Alencar, que envolveu 905 cativos, seleccionados a partir de inventários post-mortem, com o propósito de identificar à proveniência dos escravos africanos que, na segunda metade do século XIX, chegaram à Fortaleza, foram encontradas as seguintes informações: o nome (incluindo o sexo); a idade, a cor (relacionando a procedência, a etnia e a nomenclatura para designar os cativos brasileiros); a naturalidade (africano ou brasileiro); o estado civil (solteiros ou casados; se constituíram famílias); a profissão (se exercia algum tipo de ofício, qualificação); o valor do cativo (preço de sua avaliação); e, por último, um espaço destinado a algumas informações julgadas relevantes.

Para a identificação da procedência ou etnia dos escravos africanos, devemos considerar três tipos de informação: locais de procedência (região geográfica/porto de embarque); as etnias africanas propriamente ditas e as denominações triviais dadas aos escravos nascidos no Brasil. Com recurso a Mary Karasch, em “A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850)” Alênio Alencar refere que, no século XIX, o local de proveniência dos escravos angolanos se encontrava associada ao centro-oeste africano, dividido, de forma comum, em três regiões principais: Congo Norte (Cabinda), Angola e Benguela. A origem do escravo tanto podia estar relacionada com uma região, com um porto de embarque ou com uma etnia. Por vezes, na documentação não aparecia mencionada a etnia, dado que, em uma mesma região existem diferentes etnias. Dai a dificuldade em localizar, com exactidão, de onde partiram os escravos africanos que foram para o Brasil. 

Muito escravos exportados inicialmente pela foz do Rio Zaire ou Congo, foram “levados por terra para locais mais seguros em Cabinda ou armazéns mais ao norte, como Malemba, Loango e Mayumba”, passando a ser embarcados como sendo de Cabinda, mesmo que a sua procedência fosse o Congo. Muitos escravos traficados nos “mercados ligados à vasta rede comercial do Rio Zaire e seus tributários” passavam a ser chamados de Congo. Por isso, identificar um verdadeiro congolês era tarefa difícil.

Quanto ao grupo de escravos angolanos “referia-se geralmente aos cativos vindos da região central controlada pelos portugueses da Angola moderna, em especial de Luanda, sua capital, e seu interior, o vale do Rio Cuanza (Kwanza), e a região entre esse rio e Cassanje”. Esse lugar era um mercado de cativos, servindo como entreposto comercial entre o interior da África Central e Luanda. Mary Karasch também refere, que, muitas vezes, os senhores preferiam anexar, em vez do nome da sua família ao “prenome cristão do escravo”, o nome da “nação” africana a que “pertenciam”. A título de exemplo: José, Maria, Francisco…, nomes de baptismo dos escravos ainda em território africano, aos quais associavam o nome da região de origem de cada um, como: Clemente Cabinda, Maria Angola, Joana Benguela.

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