Um mundo às avessas

A Opinião de Eurídice Monteiro

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Eurídice Monteiro, cabo-verdiana, professora universitária, doutorada em sociologia

A justiça social fica comprometida nestas circunstâncias que favorecem uns e entalam outros. Por isso, não importa apenas o crescimento económico; é também preciso reforçar o papel do Estado enquanto instrumento de realização do bem comum, capaz de assegurar a dignidade das pessoas pela via do acesso ao emprego, à educação de qualidade, à saúde, à habitação, à segurança social, etc.

Vivemos num tempo paradoxal. A ciência e a tecnologia trouxeram avanços assinaláveis para o bemestar social. Mas se, por um lado, a situação actual tem gerado um excesso de expectativas, por outro é também verdade que registase uma degradação das expectativas para vastas populações do mundo.

Uma primeira leitura parece indicar que o excesso de expectativas devese ao facto de que, hoje em dia, o estímulo local tende a ser amplificado cada vez mais com base em estímulos exteriores provenientes de outros cantos do mundo e que chegam pela via dos meios de comunicação audiovisuais.

Este fenómeno atinge de forma paradigmática uma sociedade pequena como a nossa, que sempre teve influências externas, nomeadamente da América e da Europa. Disso ocorre uma amplificação das expectativas do cidadão comum ao agente burocrático. Na verdade, em Cabo Verde isso sempre existiu. Serviu antes com a principal motivação para a emigração. Em tempos idos, as pessoas tinham pouca ou nenhuma noção prévia do que havia para lá dos nossos horizontes; agora, já têm por via dos meios de comunicação audiovisuais. Isso inflaciona muito mais as expectativas e tem impacto na dinâmica quotidiana e nas opções pessoais ao longo do ciclo da vida.

Devido ao enorme desfasamento entre a realidade e a expectativa, o grau de realização pessoal e de satisfação fica sempre aquém do esperado. Por exemplo, um caboverdiano que aqui no país ganha 20 contos, pensa num telemóvel de 40 ou 60 contos. É legítimo que queira o melhor para si próprio. E ainda bem. Mas onde é que vai buscar o dinheiro? Isso gera dívidas de consumo desenfreado, para não falar também de prostituição, assaltos, assédio, corrupção. Tudo e mais alguma coisa. São as consequências mais prementes da sociedade de consumo e da sociedade de informação em que vivemos.

Em todo o caso, diga-se, em abono da verdade, que o referido excesso de expectativas não se circunscreve às camadas de rendimentos mais sofríveis. Atinge também o agente burocrático, bem instalado na alta administração insular, com a gravidade da circunstância de se estar num pequeno país onde a máquina produtiva dá sinais revigorantes da sua inércia secular e a economia é de escala diminuta e alcance pouco significante, alvo do contínuo aproveitamento dos aliados ocidentais e da chacota estridente dos nossos vizinhos africanos que nos olham de alto à baixo com notável desprezo pela nossa pequenez, arrogância e insignificância económica. Factos que fazem da sociedade uma entidade dependente do poder político. E é por esta razão que o sector informal e a emigração têm sido as principais saídas para as pessoas se libertarem das redes que o sistema tece para permitir a entrada de uns e a filtração dos indesejados. É esse mecanismo de inclusão e de exclusão que gera mal-estar social, num contexto de carências de oportunidades de ascensão social. A justiça social fica comprometida nestas circunstâncias que favorecem uns e entalam outros. Por isso, não importa apenas o crescimento económico; é também preciso reforçar o papel do Estado enquanto instrumento de realização do bem comum, capaz de assegurar a dignidade das pessoas pela via do acesso ao emprego, à educação de qualidade, à saúde, à habitação, à segurança social, etc.

Há também a outra dimensão acima referida que tem a ver com a situação inversa de degradação das expectativas. É sabido que para vastas populações do mundo as expectativas tendem a ser piores do que a realidade existente. Ou seja, as condições de vida já são tão terríveis, mas há uma degradação de tal ordem que as pessoas não vislumbram melhores condições de vida no futuro. São penalizadas no seu direito de cidadania e de realização da felicidade. Em busca de um mundo melhor, mais seguro e mais confortável, são levadas por redes criminosas e são encurraladas numa situação complexa que acaba por atrofiar a possibilidade de uma expectativa que poderia ser mais positiva e que poderia ser a favor da sua emancipação pessoal e colectiva.

Quererá isto dizer que para vastas populações do mundo o futuro que se vislumbra aparenta mais tenebroso e conduzirá a sacrifícios maiores do que o presente de que se vive, por mais sofrível que seja. Parece algo irónico, mas não é. É o pânico dessa deterioração das experiências actuais nas expectativas quanto ao futuro que tem abalado o mundo, opondo uns e outros. Em suma, para vastas populações do mundo, ao passado não se quer ou nem se pode voltar, mas o presente tornou-se inconveniente e o futuro afigura-se como insuportável.

O exemplo mais enigmático, que tem chocado o mundo, é o sofrimento de milhões de migrantes que tentam desesperadamente fazer a travessia em fuga das suas actuais experiências de vida para entrarem numa situação inimaginável como refugiados indesejados, emigrantes clandestinos ou como objectos de exploração nas redes criminosas. As fronteiras que não se abrem, nomeadamente na Europa e na América, são os novos muros da desesperança. Chegamos a 2020 desse jeito torto, com a questão dos refugiados e a crise climática a dominar a arena internacional nessa transição entre décadas. 

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