Urge cultivar a Paz em nós e no Mundo

A Opinião de Matilde Sousa Franco

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Matilde Sousa Franco, portuguesa, historiadora

Portugal, conhecido pela época dos Descobrimentos e pela primeira globalização, tornou-se com a Cátedra UNESCO Educação para a Paz Global Sustentável centro da nova navegação que pretende unir o mundo

Hoje, dia 21 de Setembro de 2018, passam 37 anos da criação do Dia Internacional da Paz pelas Nações Unidas. Nada melhor para celebrar esta data do que a realização da cerimónia oficial do lançamento da Cátedra UNESCO cujo mote é a Paz, “Educação para a Paz Global Sustentável”.

Num mundo em conflito, a Paz é sem dúvida uma necessidade e uma urgência.

A Paz tem de começar em cada um de nós, para ser o lastro para a paz Global, a qual, por não existir, permite que quotidiana e horrorizadamente sejamos testemunhas de matanças de civis (milhares de crianças !), de dizimação de patrimónios, de empobrecimento do mundo, permanentemente ameaçado.

É pois com grande júbilo que assisto hoje ao lançamento desta Cátedra da UNESCO, a 1ª da Universidade de Lisboa, e vejo nela a concretização do grande sonho que alimento desde 2005, ano em que passei a apresentar esta ideia em colóquios, e em inúmeras outras intervenções, na Assembleia da República, no Parlamento Europeu, a par da publicação de artigos de opinião sobre o assunto em diferentes instâncias e em diferentes locais.

Sendo eu historiadora e museóloga de carreira, grande entusiasta e lutadora pelas questões da Educação, actividade da qual guardo gratas recordações enquanto convidada como regente da disciplina de História de Arte na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a minha casa mãe, e na Universidade Católica Portuguesa, concebi aos 62 anos o projecto que está na génese desta cátedra, e por ele persistentemente pugnei durante quase doze anos, ciente do seu enorme alcance a favor da Paz no Mundo.

A minha paixão por Psicologia, desde a adolescência, fez-me ficar fascinada, décadas depois, ao descobrir, numa livraria em Nova Iorque, a então recentíssima Psicologia Positiva; o Positive Psychology Manifesto (de 1999) que classifica esta ciência como “o estudo científico do funcionamento humano óptimo”; o nosso êxito depender 80 % do Quociente Emocional (QE), a gestão das emoções; a adequada gestão das nossas emoções permitir que estejamos mais em paz connosco e com os outros; o facto de esta gestão, essencial à felicidade e à Paz, poder ser ensinada e sempre melhorada ao longo da vida.

Considerei esta minha descoberta um tesouro, que eu ansiava partilhar e colocar a benefício do maior número possível de pessoas, do mundo inteiro se possível, se ainda ninguém tivesse tido essa ideia e, assim …

Em 2005, sugeri, numa comunicação apresentada num colóquio sobre violência realizado na Fundação Pro Dignitate, que esse ensino da gestão das emoções fosse mais facilmente aplicado por cada um de nós em relação a si próprio, e atingisse, de forma sistemática, crianças e jovens de todos os níveis de escolaridade e adultos ao longo da vida.

Sempre obtive palavras de apoio. Porém, a concretização da minha ideia só hoje pode ver o seu início, o que me alegra e me emociona.

Desde 2007, ao meu interesse pela Inteligência Emocional, acrescentei a Inteligência Social, matéria constante do livro publicado nesse ano por Daniel Goleman sobre “Social Intelligence.The Revolutionary new Science of Human Relationships”.

Apenas em jeito de apresentação, abordemos a questão essencial – Paz, como educar para a Paz?

A prevenção e manutenção da Paz é natural desígnio maior desde o fim da 2ª Guerra Mundial (1945), e até ao fim da Guerra Fria (1991) entendia-se por paz a ausência de guerra.

Desde então, pretende-se uma Paz Positiva, que tem por base o diálogo, deve ser cultivada em casa, em família, no bairro, na escola, no local de trabalho, e implica direitos humanos, justiça social, igualdade, gestão equilibrada dos recursos, etc.

A Agenda 2030 da ONU pretende “promover a prosperidade e o bem-estar de todos”, através de um novo modelo global, tem como pilares os designados “5 P`s”: pessoas, prosperidade, paz, parcerias e planeta, e une os países em redor dos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), os quais são complementares entre si, e o 16º, sobre “Paz, Justiça e instituições eficazes”, ainda no título enfatiza a Paz.

O 4º ODS, sobre “Educação de Qualidade”, estipula: “Até 2030, garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e as perícias necessárias para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive, entre outros, … direitos humanos, igualdade de género, promoção de uma cultura de paz e da não violência, cidadania global e valorização da diversidade cultural e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável”, etc.

A Agenda 2030 da ONU entusiasmou-me a tentar a concretização de três sonhos a favor da paz.

Um mais relacionado com os “direitos humanos, igualdade de género, promoção de uma cultura de paz e da não violência, cidadania global”, o qual concebi com base na Psicologia Positiva, na Inteligência Emocional e na Inteligência Social, e deu origem à cátedra que hoje se começa a concretizar, e cuja génese devo mais adiante mencionar.

Os outros dois sonhos relacionam-se sobretudo com a “valorização da diversidade cultural e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável”, têm por base a minha formação em História e a minha especialização em Museologia. Apesar de os projectos nºs 2 e 3 terem alguns pontos de contacto, são completamente independentes entre si, dando eu prioridade ao projecto da classificação como Património Mundial Imaterial da UNESCO do Portugal Global, pensando ser secundário o projecto museológico com o mesmo título, e sobre ambos tenho também publicado bastantes textos.

Para o projecto nº 1, a que primeiro chamei “Educação para a Felicidade” e o qual depois evoluiu para a nossa Cátedra UNESCO, sugeri três pilares:

  • este essencial ensino da gestão das emoções fosse ministrado de forma sistemática às crianças, desde a mais tenra idade e ao longo de toda a escolaridade;
  • este ensino fosse acessível para adultos, mesmo com carências económicas/financeiras;
  • fossem criados, em todas as áreas de actividade, prémios que distingam pessoas, instituições, projectos, que privilegiem o diálogo e a paz. Sugeri que a atribuição de prémios se iniciasse por projectos de arquitectura / urbanismo que não façam guetos, mas uma arquitectura /urbanismo funcionais, harmoniosos e belos, que fomentem o diálogo, facilitem a vida quotidiana, proporcionem prazer estético, aumentem a felicidade, sejam construtores de Paz.

Anoto que até no meu discurso de despedida enquanto deputada parlamentar independente (fui deputada de 2005 a 2009), enfatizei este sonho, tendo assim terminado essa intervenção, publicada no Diário da Assembleia da República,

I Série, Nº 105, 24 de Julho de 2009, pp. 50-52: “… Constantemente insisti, supliquei, para que Portugal dê exemplos mundiais em várias áreas de humanismo, para que o século XXI seja, finalmente, o “Século dos Direitos Humanos”:

A área em que mais tenho insistido é a do humanismo na pedagogia, com a sugestão inovadora que faço desde 2005 – e aqui, na Assembleia da República, desde 2007 -, para a criação, do 1º ao 12º ano da escolaridade de uma cadeira obrigatória a que dei o apelativo nome de “Educação para a Felicidade”, a qual terá por base a moderna ciência da inteligência emocional e social …

A referida cadeira deve ter componentes como ética, a saúde, primeiros socorros, nutrição, sexualidade, modo de gerir o quotidiano, alegrias, frustrações, desgostos, educação contra a violência, educação para a preservação do meio ambiente e do património cultural, normas de segurança, educação para a cidadania (em moldes mais actuais), fazendo com que haja maior tolerância, mais diálogo, inclusivamente intercultural, e mais paz.

Se eu, modesta Deputada independente, com 66 anos cheios de desgostos e faltas de saúde, mas de espírito jovem, que me levou até a experimentar andar de moto eléctrica, conseguir apoios para que Portugal seja agora vanguardista dos direitos humanos, designadamente com a criação da cadeira de “Educação para a Felicidade”, sentir-me-ei mais feliz.

Nunca fiz viagens pagas pelo Parlamento, mas farei, assim, a única que me interessa: ao Portugal do futuro, como referência mundial dos direitos humanos, da paz e do amor”.

Finalmente, na Primavera de 2016, começou a surgir a constelação de apoios essenciais à concretização do meu sonho.

Devo sublinhar que entretanto, de 2005 a 2016, dos milhares de pessoas a quem, verbalmente e por escrito, expus este sonho, houve uma única pessoa que persistentemente me incentivou a não desistir: o meu Professor de Filosofia da Faculdade de Letras, o Prof. Doutor Padre Joaquim Cerqueira Gonçalves, franciscano, que desde há mais de 50 anos se tornou meu amigo, além de Mestre para a vida.

Seguidamente, refiro por ordem cronológica os apoios decisivos:

  • O Presidente da República, Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, que em 12 de Abril de 2016, me felicitou, perante o meu “Memorandum”, de 21 de Março, “Educação para a Felicidade, para a Globalização da Paz”.
  • O Professor da Universidade de Pensilvânia, E.U.A. James Pawelski, director da International Positive Psychology Association (IPPA), respondeu no próprio dia 17 de Junho de 2016 ao meu mail, demonstrando ainda ninguém no mundo ter tido esta ideia e animando-me a prosseguir.
  • O Prof. Doutor Adriano Moreira, Presidente do Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa, em 18 de Julho de 2016 considerou “a sugestão como muito oportuna e não adiável”, reconheceu o valor da iniciativa dando-me a honra de me tornar colaboradora deste Instituto, e colocou-me em contacto com a Profª Doutora Maria Salomé Pais, Secretária-Geral da Academia das Ciências de Lisboa.

Com a máxima prontidão, sábios conselhos, profundo empenho e trabalho, os Professores Adriano Moreira e Maria Salomé Pais apoiaram e tornaram possível a difícil concretização do meu projecto.

Assim, o primeiro “berço” da cátedra, o sítio onde esta nasceu, foi a Academia das Ciências de Lisboa, ou, pormenorizando, o “berço” localizou-se no gabinete da Senhora Secretária-Geral!.

  • De facto, a Profª Doutora Maria Salomé Pais logo pôs em marcha a concretização do projecto, sugerindo o formato de cátedra UNESCO, no qual já tinha experiência, e organizando comigo e com os Coordenadores do Executive Master em Psicologia Positiva Aplicada, ambos professores do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Profª Doutora Helena Marujo e Prof. Doutor Luís Miguel Neto, os quais então ainda não conhecíamos pessoalmente, reuniões no seu gabinete na Academia das Ciências de Lisboa.
  • Logo desde o início, contámos com a colaboração do Ministério dos Negócios Estrangeiros, com o valioso apoio da UNESCO, através da Doutora Rita Brasil de Brito.
  • No início de Janeiro de 2017, dei conhecimento do projecto ao Engenheiro António Guterres, que apesar de ter acabado de tomar posse como Secretário-Geral das Nações Unidas, de imediato o apoiou, e em Março de 2017, perante o primeiro documento científico, no mesmo dia me escreveu num mail “o meu apoio está assegurado”.
  • Também ainda antes da aprovação pela UNESCO, a Presidência da República logo concedeu o seu Alto Patrocínio.
  • Em Março, a Profª Doutora Helena Marujo apresentou o primeiro, já excelente, documento científico acima mencionado, e em finais de Abril de 2017, seguiu para Paris o documento completo, o qual foi acompanhado por cerca de uma centena de cartas de apoio de dezenas de personalidades, e instituições portuguesas e estrangeiras.
  • Em 17 de Abril de 2017, o Prof. Doutor Rodrigo Tavares, o primeiro Doutor português em estudos da Paz, formado na Suécia, aceitou colaborar connosco, e já se encontra a trabalhar no nosso projecto na área da atribuição dos prémios.

A cátedra foi aprovada pela UNESCO no início de Agosto, em pouco mais de três meses, em tempo curtíssimo, e em 16 de Agosto de 2017, publiquei um artigo no “Observador” a manifestar o meu reconhecimento a todos os que tornaram possível a concretização deste meu projecto.

Não posso deixar de anotar que durante cerca de dois anos a minha ocupação diária, que me preenchia completa e gostosamente o tempo, foi com a cátedra.

Se a Academia das Ciências de Lisboa foi o primeiro “berço” do projecto, o segundo foi o ISCSP, da Universidade de Lisboa, tendo a Profª Doutora Helena Marujo ficado como coordenadora, e fazendo parte da equipa o Prof. Doutor Luís Miguel Neto, o Prof. Doutor Hermano Carmo e o Prof. Doutor Fernando Serra, além de uns elementos exteriores ao ISCSP, como é o meu caso.

A colaboração da Universidade Aberta permite o ensino à distância, o qual melhor pode levar a todo o Mundo este ensino da Paz.

Na minha qualidade de Colaboradora do Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa, relatei aos Professores Adriano Moreira e Maria Salomé Pais, por mail de 19 de Abril de 2018, que em reunião alargada a onze pessoas, ocorrida na véspera no ISCSP, foi proposto e decidido eu ficar como vice-coordenadora da cátedra, e conforme então escrevi “para mais directamente colaborar com a Professora Helena Marujo, aguardando que ela me diga quando quer iniciar essa minha colaboração”. Até agora, a Professora Helena Marujo, que no seu afectivo modo de ser tão adequado à sua especialização em Psicologia Positiva desde o início me chama “a mãe da cátedra”, ainda não me disse para iniciar as minhas funções de vice-coordenadora, o que farei entusiásticamente.

Este é um projecto em construção ao longo de décadas, voltado para um futuro que já não será meu, mas que com o maior prazer pensei em atenção às gerações mais novas.

Peço licença para dedicar este meu trabalho principalmente aos que me são mais próximos, a Inês, o Filipe, o João, o Manuel e a Maria, meus muito queridos filha, genro e netos, e neles a todas as gerações vindouras, para quem a paz será também um bem essencial, e em quem reside a esperança de um mundo melhor.

Não posso deixar de gratamente evocar o já considerado “maior pensador do século XX”, o meu querido Tio-Avô António Sérgio (1883-1969), meu Mestre em Pedagogia e em diversificados saberes, com quem tive o privilégio de muito conviver, e o qual ficaria feliz com este meu trabalho, que na sua obra se inspirou.

Já há dezenas de instituições de cerca de 20 países de vários continentes a aderir à Cátedra UNESCO “Educação para a Paz Global Sustentável”, a qual tem a sigla “E=GPS”, ou seja, Educação é igual a “Global Peace Sustainability”, das iniciais da designação em inglês desta cátedra. A sigla “GPS” repete a do tão popularizado sistema de navegação por satélite, só que aqui o satélite é a Educação.

Muito recentemente, António Guterres, Secretário-Geral da ONU, fez outro veemente apelo para se “Unir o mundo”, onde escreveu: … “A nossa responsabilidade passa por nos unirmos para construir um mundo de paz e segurança, dignidade e oportunidade para todas as pessoas, em todos os lugares”.

Portugal, internacionalmente conhecido pela época dos Descobrimentos e autor da primeira globalização, tornou-se com a Cátedra UNESCO “EDUCAÇÃO PARA A PAZ GLOBAL SUSTENTÁVEL” centro desta nova navegação que pretende unir o mundo, tornou-se “GPS” da PAZ GLOBAL!

Colaboradora do Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa; Sócia de: Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa, Academia Portuguesa da História, Academia Nacional de Belas-Artes

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